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Manuel Falcão 28 de Março de 2013 às 14:02

A esquina do Rio

Num país com a dimensão de Portugal, qual o sentido de existir um serviço público de televisão, suportado pelos cidadãos, neste caso por uma taxa obrigatoriamente paga por todos os consumidores de electricidade?

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Cultura & Serviço Público
Num país com a dimensão de Portugal, qual o sentido de existir um serviço público de televisão, suportado pelos cidadãos, neste caso por uma taxa obrigatoriamente paga por todos os consumidores de electricidade? Numa sociedade onde, felizmente, existem vários operadores privados de televisão e de rádio, e numa época em que o digital veio proporcionar novas formas de emissão, difusão e recepção - para não falar já na profunda alteração dos hábitos e formas de consumo de televisão, sobretudo entre os mais novos - para que serve um serviço público?


Nesta conjuntura, porque deve existir um serviço público financiado pelos cidadãos, quando três quartos das casas têm cabo e acesso a mais de 50 canais de todo o mundo? O serviço público deve fazer concorrência aos privados, disputando com eles audiências e publicidade? Ou deve proporcionar programação alternativa e formativa? O serviço público deve ser comprador concorrencial de direitos de exibição de futebol, um conteúdo comercial especialmente apetecível, contribuindo para inflacionar o seu preço? Ou deve privilegiar o fomento da produção de ficção e dos documentários sobre a realidade portuguesa? Deve fomentar a criatividade ou a boçalidade? Deve fazer programação infantil em português, que possa ser difundida noutros países lusófonos, ou deve gastar recursos a fazer formatos internacionais de concursos e de entretenimento? Deve privilegiar a co-produção com outros países do universo cultural lusófono, ou adquirir séries que passam nos canais de cabo emitidos em Portugal?


As perguntas são numerosas mas, no fim, resumem-se a isto: o serviço público deve investir em produção de "stock", que possa ser reutilizada, emitida diversas vezes, ou, como tem predominantemente feito, investir em produção de fluxo que se esgota na primeira emissão? Bem sei que um canal que se focasse na nossa cultura e na nossa história, que fizesse uma informação de referência, abdicando da espectacularidade, do sensacionalismo e da chicana política, teria menos audiência e menor influência na luta partidária. Mas, ao nível a que já caíram as audiências da RTP, a diferença não seria grande e até poderiam surgir surpresas. Mais vale um serviço público sério, rigoroso e dinamizador do tecido industrial audiovisual do que um serviço incaracterístico, concorrencial com os privados e que tenha por missão disputar audiências.


Um serviço público pensado sobre uma matriz cultural numa acepção mais ampla da palavra seria uma alternativa verdadeira, teria um carácter complementar e um papel maior e mais importante a longo-prazo na defesa da presença da nossa língua no mundo. Um serviço público assim, que dinamizasse a indústria audiovisual, que apostasse na produção externa, seria um investimento com retorno em vez de um problema a fundo perdido - como a RTP tem maioritariamente sido nos últimos 20 anos. Um país que não tiver produção audiovisual de referência, que não apostar em conteúdos duradouros, não terá existência futura no mundo digital, o seu idioma não existirá para geração futuras, não terá presença nem influência internacional. Infelizmente, a estratégia é esta, a da dissolução da nossa presença no mundo contemporâneo - bem diferente de outros países com idiomas menos falados, como a Noruega, a Finlândia ou a Islândia, onde, no entanto, se pensa numa estratégia nacional de conteúdos - que tem sabido cativar audiências onde menos se espera.

 

 

Ouvir
O jazz é um território de cruzamentos, de fusões, de encontros inesperados, de desafios. Jason Moran, 38 anos, é um dos mais interessantes pianistas da nova geração do jazz americano, um contraste com o saxofonista Charles Lloyd, de 75 anos. São duas gerações de músicos, com influências diferentes. Moran integra a formação regular de Lloyd, mas em "Hagar's Song" decidiram juntar-se apenas os dois. Charles Lloyd assegura o sax alto e tenor e flautas e Jason Moran o piano e tamborim. O título do álbum, e um dos seus temas, "Hagar Suite", representa uma homenagem à avó de Lloyd, que foi uma escrava negra. Para além dos temas originais, intensos, aqui estão versões inesperadas e cativantes de Mood Indigo, de Duke Ellington, de "Bess You Are My Woman Now", de Gershwin, de "I Shall Be Released", de Bob Dylan, e de "God Only Knows", dos Beach Boys, com quem aliás Lloyd tocou na Califórnia nos anos 70. CD ECM, na Amazon.

 


Arco da velha
O número de exemplares vendidos de publicações de imprensa periódica em 2011 foi o mais baixo desde o início do milénio.

 


Folhear
Como era o mundo do jazz na Lisboa entre os anos 20 e 50 do século passado? João Moreira dos Santos, um dos homens que mais se tem dedicado à investigação da história do jazz em Portugal, fez um curioso roteiro do que foi o despontar do jazz em Lisboa, desde clubes como o Bristol, a cabarets como o Maxime (que era no Palácio Foz), clubes como o Magestic ou o Nina (onde tocou Louis Armstrong), passando por cafés como o Negresco, o Hot Clube, ou salas como o Teatro Apolo, o Condes ou o Coliseu dos Recreios, não esquecendo o São Carlos onde, já em 1925, se tocava jazz. Ao longo de uma centena de páginas compilam-se informações, pequenas histórias e curiosidades que ajudam a fazer o retrato de uma Lisboa cosmopolita - como se diz na capa, este é um "guia ilustrado de 40 espaços históricos dos primórdios do jazz em Portugal". Edição Casa Sassetti.

 


Semanada
A Biblioteca Nacional contava, em 2010, com 46.502 leitores presenciais, uma redução em relação aos 69.341 de 2000; em 1997 existiam 164 bibliotecas escolares, em 2011 o total era de 2.490, das quais 2.069 no ensino básico público e 36 no ensino privado; em 2007 foram registados 17.097 novos títulos de livros, em 2011 o número desceu para 16.839, o valor mais baixo dos últimos anos; em 1960 existiam 437 recintos de espectáculos, em 2011 o número era de 165; em 1960 a percentagem de espectadores de cinema era de 2,9% por mil habitantes e em 2011 era de 1,5%; 2011 foi o ano com menor número de filmes portugueses exibidos desde 2000; o número de exibições de filmes de origem norte-americana quadruplicou entre 1980 e 2011; o número médio de espectadores de cinema por sessão era de 334 em 1960, passou para 179 em 1980, reduziu para 56 em 1990 e caiu para 23 em 2011; em 2009, o Teatro Nacional de S. Carlos registou 46.272 espectadores de ópera e em 2011 desceu para 23.838, um número ainda menor do que os 27.675 de 1986; os gastos familiares com cultura e lazer desceram 9,5% no último ano.

 


Provar
O pastel de Chaves é uma especialidade tradicional constituída por uma espécie de folhado finíssimo de carne picada no interior, com tempero transmontano. A receita original foi inventada há 150 anos e em 2012 passou a ser um produto de indicação geográfica protegida. Desde há algum tempo passou a ser possível prová-los em Lisboa, na loja Prazeres da Terra, que fica no nº 6 do Largo Dona Estefânia. Lá estão eles fresquinhos todos os dias, prontos a comer ou a levar, ou ainda congelados para fazer em casa à medida das necessidades - e na versão congelados há também um belo formato mini. A casa tem muitos e bons produtos transmontanos, de enchidos a azeite, passando por vinhos, queijos, compotas e o célebre pão de Gimonde, pitos de Santa Luzia, corvilhetes (umas empadas) de Vila Real, ou o folar de Chaves. Um mundo de bons petiscos.

 

 

Ver
Na galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2C, 2.ª a 6.ª, das 15 às 19h30), está uma mostra do trabalho realizado nos últimos 25 anos por Júlio Pomar sobre o suporte azulejo - como as figuras de convite, evocação dos painéis que eram colocados na entrada de edifícios numa atitude de cortesia. Na exposição, "Que Procura Vmê" estão também cerâmicas - por exemplo cinco peças feitas a partir dos moldes de Bordallo Pinheiro, que resultaram de um desafio feito pela galerista, Ana Viegas, a Júlio Pomar, a propósito da comemoração do centenário da morte de Bordallo Pinheiro, em 2005.

 


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