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Joaquim Aguiar 15 de Junho de 2020 às 20:25

A crise da convergência de crises

Todos os anteriores equilíbrios instáveis se misturam agora num desequilíbrio generalizado, todas as contas deixaram de estar certas porque a realidade passou a ser outra.

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A FRASE...

 

"A oposição entre contas certas e realidade errada passou a ser uma espécie de mote para o destino do país." 

 

Vicente Jorge Silva, Público, 14 de Junho de 2020

A ANÁLISE...

 

Será sempre difícil, mas não é impossível gerir equilíbrios instáveis no sistema de relações internacionais desde que haja uma estrutura de ordem mundial que sirva de enquadramento de referência (indicando o que tem de ser feito para os corrigir) e instituições de coordenação supranacionais que possam oferecer os recursos necessários para financiar essas correcções (porque os Estados que se encontrem numa configuração de equilíbrio instável já não têm recursos próprios para voltar ao equilíbrio sustentável).

 

Mas a estrutura de ordem mundial deixou de estar operacional desde que os Estados Unidos escolheram o caminho do isolacionismo nacionalista como estratégia de resposta à ascensão da China ao estatuto de poder relevante na escala global. Agora, são os Estados Unidos que impedem o funcionamento das instituições de coordenação supranacionais que os Estados Unidos promoveram e usaram para estabelecerem o seu poder de reguladores da ordem mundial quando substituíram a Grã-Bretanha no estatuto de centro hegemónico da ordem mundial. Quando deixa de existir um poder hegemónico com capacidade dissuasora e não há plataformas supranacionais de negociação dos conflitos, todos os equilíbrios instáveis locais deixaram de ser controláveis, podendo evoluir rapidamente para o desequilíbrio generalizado.

 

É neste contexto que uma epidemia de contágio fácil veio provocar a paralisação das sociedades e o congelamento das economias, interrompendo os fluxos económicos e o regular funcionamento dos mercados, impondo um nível de endividamento que nenhuma economia nacional e nenhum Estado poderão financiar. Todos os anteriores equilíbrios instáveis se misturam agora num desequilíbrio generalizado, todas as contas deixaram de estar certas porque a realidade passou a ser outra. Esta é uma crise que resulta da convergência das várias crises anteriores, destruindo os equilíbrios instáveis a que elas tinham conduzido, que desaparecem agora e aos quais já não se poderá voltar. E as contas só voltarão a estar certas quando se reconhecer que a escala em que se define o poder é a escala em que existirem os recursos necessários para que o poder seja exercido. 

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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