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Joaquim Aguiar 03 de Abril de 2019 às 21:06

O óbvio ululante

É Poul Thomsen, o negociador por parte do FMI, que nos vem recordar que "houve um claro entendimento sobre o que é que a maioria política em Portugal poderia apoiar. E isso permitiu que, quando se deu uma mudança de governo mais tarde, não se realizassem praticamente mudanças no programa.

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A FRASE...

 

"Quando negociei o programa aqui com o Governo socialista, ao mesmo tempo discuti discretamente - mas com o total conhecimento do Governo - com o então principal partido da oposição."

 

Poul Thomsen, Público, 31 de Março de 2019

 

A ANÁLISE...

 

Há coisas que se sabem, mas não se dizem para não se ser inconveniente. Há coisas que se sabem por dedução, mas não se dizem porque não se pode provar. Mas há coisas que testemunhas directas dizem que, mesmo já se sabendo que tinha sido assim, passaria a ser indelicado para quem faz o favor de tornar pública esta informação de que foi protagonista principal não lhe agradecer o contributo e não o comentar.

 

É Poul Thomsen, o negociador por parte do FMI, que nos vem recordar que "houve um claro entendimento sobre o que é que a maioria política em Portugal poderia apoiar. E isso permitiu que, quando se deu uma mudança de governo mais tarde, não se realizassem praticamente mudanças no programa. Mantivemos um forte apoio político no primeiro ano, ano e meio". Quem tivesse acompanhado os processos de formação dos dois anteriores programas de auxílio de emergência a Portugal negociados com o FMI não poderia duvidar que também o terceiro, agora já no enquadramento da União Europeia, teria de respeitar a regra básica de ser negociado com os responsáveis que assegurassem um apoio maioritário estável e coerente (para recordar os termos exactos da negociação do primeiro programa com o FMI, em 1977, e que depois ficou como critério para a constituição do segundo governo constitucional, após a queda do primeiro governo socialista minoritário. Ou seja, não poderia deixar de se saber que o programa da troika foi negociado com o Governo socialista, discretamente discutido com o partido social-democrata e apoiado por ambos.

Não podia deixar de ser assim. Mas foi deliberadamente escondido e continua a ser silenciado. É história, já não pode ser alterado. O problema é que o tempo presente, em que continua a esconder-se e a silenciar--se o diagnóstico dessa crise, tem sempre um tempo futuro e as mesmas práticas, se não forem criticadas e repudiadas, vão gerar os mesmos efeitos.  

 

Artigo está em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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