Paulo Carmona
Paulo Carmona 28 de outubro de 2019 às 19:40

O Estado, a economia e a transformação digital

E nós por cá? Continuamos o pregão, século XXI, da defesa dos trabalhadores, em vez de falarmos da requalificação e formação, ou da adaptação das licenciaturas com competências e pensamento crítico para trabalhos não mecanizáveis.

A FRASE...

 

"Talvez se houver novos investimentos e inovação, em geral, sejam precisas novas competências e habilitações e o país possa crescer."

Alberto Castro, Dinheiro Vivo, 26 de outubro de 2019

 

A ANÁLISE...

 

Madeleine Albright, muito atenta aos fenómenos de Silicon Valley, dizia já em 2017: "Os cidadãos estão a falar com os seus governos usando tecnologia do século XXI, os governos estão a ouvir com a tecnologia e a mentalidade do século XX e com soluções e instituições do século XIX." A flexibilidade do trabalho, a circulação de informação e os novos modelos de negócio estão cá amanhã, neste mundo cada vez mais acelerado.

Especialmente as novas formas de emprego e de negócios colocarão desafios fora do alcance dos membros da concertação social e, especialmente, dos sindicatos. Não conseguimos trabalhar a sociedade do futuro com sindicatos ou partidos de extrema-esquerda de base marxista de luta de classes e de proletários e camponeses. Esses foram robotizados e o mundo é de jovens génios com tecnologia e boas ideias que ficam ricos rapidamente. E as empresas estão a tratar cada vez melhor os seus talentos, os funcionários qualificados, e a automatizar os restantes.

Isso trar-nos-á uma situação complexa de desigualdade. Entre países que apanharam a onda da digitalização e os outros que ainda têm deficiências no abastecimento de energia elétrica, entre empresas que se modernizaram e as que ficaram para trás, sem acesso às novas plataformas de cadeias de valor e relação com o consumidor, e entre os trabalhadores. As profissões com mais procura irão ter uma remuneração que será o dobro ou o triplo das que terão menos, colocando tensões salariais dentro da empresa entre trabalhadores. A liberdade dada pela digitalização soltará a lei da oferta e da procura no mercado de trabalho e forçará as empresas a concorrer por essas profissões e desvalorizar as restantes. Entretanto, muitos trabalhadores preferirão trabalhar fora do local de trabalho, em rede, quais freelancers, eventualmente sem segurança social, ou tax-free através de blockchains tipo Libra.

E nós por cá? Continuamos o pregão, século XXI, da defesa dos trabalhadores, em vez de falarmos da requalificação e formação, ou da adaptação das licenciaturas com competências e pensamento crítico para trabalhos não mecanizáveis. A digitalização não sabe o que é a esquerda ou a direita.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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