Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 19 de maio de 2019 às 20:47

Marques Mendes: Não vai acontecer nada à comenda de Sócrates?

As notas da semana de Marques Mendes no seu habitual comentário na SIC. O comentador fala sobre o campeonato de futebol, o caso Berardo, as eleições europeias, carga fiscal e o crescimento da economia.

BALANÇO DO CAMPEONATO DE FUTEBOL

 

  1. Prémio Consagração – Benfica
  • É um título merecido, em função da 2ª volta notável que realizou. Ganha por mérito próprio e por demérito alheio.
  • Na Guerra dos Tronos, depois da derrota de há um ano, o Benfica precisava desta Reconquista para recuperar a sua hegemonia nacional. 
  1. Prémio Desilusão – Porto
  • Estrategicamente, depois da vitória de há 1 ano, o FCPorto precisava desta vitória para se consolidar e quebrar o ritmo do Benfica.
  • Não conseguiu por culpa própria. Teve 7 pontos de avanço, teve condições para ganhar tudo e corre o risco de perder tudo, se perder a Taça de Portugal. Uma derrota a deixar marcas. 
  1. Prémio Resistência – Sporting
  • Depois do historial de loucura e desilusão de há 1 ano, fez uma época notável: 3º lugar, Taça da Liga, Finalista da Taça de Portugal.
  • Conclusão: a credibilidade venceu o populismo e a megalomania.

 

  1. Prémio Superação – Moreirense
  • Uma equipa de uma freguesia de Guimarães.
  • Depois de ter ganho a Taça da Liga há um ano, termina o campeonato em 5º lugar, à frente de clubes com orçamentos maiores e mais elevados. Parece a descentralização a afirmar-se ao futebol
  1. Prémio Surpresa – Bruno Lage
  • Há 1 ano era um desconhecido. Há 5 meses era solução de transição e de recurso. Agora entrou para a história do Benfica.
  • Teve uma oportunidade e agarrou-a. Percebeu, como na política, que não há segunda oportunidade para criar uma primeira boa impressão
  1. Prémio Revelação – João Félix
  • É a coqueluche do Benfica. Parece que tem magia.
  • Já é exibido urbi et orbi. Um verdadeiro jackpot
  1. Prémio Confirmação – Bruno Fernandes
  • Fez uma época de ouro. Foi o abono de família do Sporting.
  • Agora, vai por certo para o mundo global. Mais um a mostrar que Portugal é cada vez mais um país aberto ao mundo e exportador de talentos. 
  1. Prémio Elefante no Estádio – Arbitragem
  • Como é habitual esteve no centro das atenções. Em matéria de árbitros, tivemos polemicas a mais, competência a menos, exagero dos dirigentes e bastante amadorismo do VAR. Uma boa experiência que carece de melhoras rápidas. 
  1. Prémio Corpo Estranho – Belenenses SAD
  • É um corpo estranho. É um Belenenses que perdeu o estádio, perdeu o emblema da Cruz de Cristo, perdeu adeptos e mesmo assim está na 1ª Liga. Como é possível? Só em Portugal.

 

O CASO BERARDO

 

Há neste caso três questões novas e distintas entre si que merecem especial atenção.

 

  1. Primeira questão: a condecoração de Berardo. José Miguel Júdice suscitou a questão e eu concordo. Apesar de não apreciar muito decisões "à la carte". Mas, já que foi aberto um precedente com Berardo, há um caso ainda pior do que o comendador madeirenseJosé Sócrates. Pouca gente sabe mas o ex-PM foi condecorado em 21 de Abril de 2005. Apesar de, também ele, não ter qualquer condenação, tudo o que é conhecido é, do ponto de vista ético e público, ainda mais grave para os interesses do país e para a imagem de Portugal do que o que sucedeu com Joe Berardo. Porque é um ex-PM. Mancha a imagem de Portugal. Tem maiores responsabilidades. Por isso, pergunto: não vai acontecer nada à comenda de Sócrates? Não se instaura também um procedimento disciplinar? 
  1. Segunda questão: as responsabilidades. Ao longo da semana, uns desvalorizam o comportamento de Berardo, considerando que maior culpa é dos Bancos; outros desvalorizam a responsabilidade dos Bancos e fazem de Berardo o único vilão.
  • Sejamos claros. Este é um caso sério de polícia e envolve todos: Berardo e os gestores da Banca. Todos têm sérias responsabilidades. Berardo, no mínimo, aldrabou os Bancos; no máximo, fez uma burla. Não merece perdão. Vários gestores ou foram negligentes ou praticaram gestão danosa. Não merecem desculpa. Não vale a pena estar a desculpar ou a desvalorizar ninguém. O que todos merecem é investigação e julgamento.
  • Num país a sério isto acabava com gente na cadeia – devedores e gestores.

 

  1. Última questão: a justiça. Este caso Berardo é o primeiro grande desafio à coragem de intervenção da nova PGR. Os casos antecedentes não são famosos. O Processo Marquês demorou 4 anos a investigar; o caso BES já vai fazer 5 anos e ainda nem sequer há acusação; a investigação das PPP rodoviárias já vai em 8 anos; por este andar o caso da CGD vai parar à eternidade.
  • Isto não é aceitável. Se há falta de meios, a PGR que o diga abertamente. Se há falta de meios e o Governo não os dá, digam-no sem rodeios. O que não é aceitável é esta lentidão – perdem-se provas, chegam as prescrições e os portugueses indignam-se com a justiça. E, se assim for, tem de se criticar também a justiça por não cumprir a sua função. 

 

ELEIÇÕES EUROPEIAS

 

Conclusões a tirar a uma semana das eleições europeias:

 

  1. Primeiro: teremos provavelmente uma elevada taxa de abstenção. É mau mas não é novidade. Nos últimos 25 anos a abstenção nas Europeias tem sido sempre acima de 60%. Votam 3 a 3,5 milhões. Abstêm-se 6 a 6,5 milhões. Isto não significa que os portugueses estejam divorciados do projecto europeu. Significa, sim, que o Parlamento Europeu diz muito pouco às pessoas. É a percepção pública que existe nos eleitores. 
  1. Segundo: Portugal será excepção no contexto europeu – Na Europa haverá uma perigosa subida dos partidos eurocépticos, nacionalistas e de extrema direita. Portugal será uma boa excepção. Em princípio, só os partidos tradicionais elegerão deputados. E isso põe-nos a resguardo de tendências extremistas, radicais e de extrema-direita. 
  1. Terceiro: são umas eleições marcadas pele recente crise dos professores – Só no final se poderá avaliar o real efeito que a crise eleitoralmente teve. Mas um dado é desde já evidente – inverteu a dinâmica das campanhas. O PS estava à defesa, passou ao ataque. A oposição estava na dianteira, abrandou a sua dinâmica. 
  1. Quarto: estas eleições rodam em torno de António Costa. Parecem eleições uninominais. Parecem um plebiscito ao PM. António Costa nacionalizou as eleições, governamentalizou as eleições, colocou o Governo todo em modo de campanha, obrigou a oposição a ir atrás da sua estratégia e marca o discurso da campanha. Se o PS vencer, a vitória é toda de António Costa. E em qualquer caso não são verdadeiras eleições europeias – são a primeira volta das legislativas. 
  2. Quinto: as grandes dúvidas para domingo sãoMarinho Pinto: há 5 anos elegeu 2 deputados. Provavelmente vai perdê-los agora. Quem vai beneficiar com isso? A esquerda ou a direita? À esquerda: há 5 anos o PCP ganhou ao BE (3 contra 1 deputado). Será que esta tendência se vai manter ou o Bloco vai equilibrar as contas? À direita: quem mais vai beneficiar? O PSD ou o CDS? O PS: há 5 anos ganhou por "poucochinho". E a liderança mudou. Como vai ser agora? A liderança não está em causa. Mas o melhor ou o pior resultado do PS dá maior ou menor autoridade política ao PS para as legislativas.

 

 

CARGA FISCAL NO MÁXIMO

 

  1. O INE confirmou esta semana que em 2018 Portugal bateu mais um record – tivemos a maior carga fiscal de sempre (35,4% do PIB). Mário Centeno é ao mesmo tempo o recordista do défice mais baixo de sempre (um bom galardão) e o campeão da maior carga fiscal de sempre (um título pouco recomendável). 
  1. Mas isto, dito assim, diz pouco às pessoas. A grande questão é: em termos de esforço fiscal, os portugueses estão a fazer mais ou menos esforço que a generalidade dos europeus? Para responder, temos que analisar o esforço fiscal relativo de cada país. Esforço fiscal relativo é um indicador que mede a carga fiscal de cada país em comparação como seu nível de vida, medido pelo PIB per capita
  1. Analisado no quadro europeu, o que temos? Primeiro: estamos 22% acima do esforço fiscal média da Europa a 28. O que significa que para o seu nível de vida os portugueses estão a fazer um esforço fiscal superior ao da média dos europeusSegundo: só há 5 países em situação pior que a nossa (Croácia, Grécia, Bulgária, Hungria e Polónia). Ao contrário, 22 países estão melhor que nósTerceiro: a Irlanda (que devia ser o nosso exemplo) tem um esforço fiscal muito aquém do da média europeia
  1. Este brutal esforço fiscal é mau. Mau para o investimento que não sobe como devia subir; para a economia que não cresce como devia crescer; para as pessoas que se sentem a trabalhar mais para o Estado e menos para as suas poupanças.
  • Aqui está um bom tema para a próxima campanha eleitoral. E sobretudo um bom tema para os programas eleitorais do PSD e do CDS.
  • Mas, para isso, não chega defender uma redução da carga fiscal. É preciso ter um plano concreto: que impostos baixam? Que calendário para a redução? Quais as despesas que se cortam para compensar a redução fiscal?

 

CRESCIMENTO DA ECONOMIA

 

  1. O INE divulgou os dados do crescimento da economia no primeiro trimestre deste ano. Aplica-se aqui na perfeição a história do "copo meio cheio" ou do "copo meio vazio". 
  1. Para muitos, estes resultados são bons. É a teoria do "copo meio cheio". E têm alguma razão: estes resultados foram melhores que os do último trimestre de 2018; e estamos a crescer (1,8%) acima da média da Zona Euro (1,2%) e acima da média da União Europeia (1,5%)
  1. Mas, atenção! Estamos a crescer menos que os países do nosso campeonato. Esta é a lógica do "copo meio vazio". E devia suscitar-nos bastante preocupaçãoPrimeiro: estamos cada vez mais na cauda da Europa do Euro. Em 19 países da Zona Euro, estamos em 17º lugar. Atrás de nós só temos a Letónia e a Grécia. Não são grandes companhias. Segundo: nos últimos anos fomos ultrapassados por vários países – Eslovénia, Malta, Estónia, Eslováquia e Lituânia. Para além da República Checa, que não é da Zona Euro. Terceiro: se não crescemos mais, corremos o risco de, dentro de poucos anos, sermos ultrapassados pela Letónia e passarmos a ser, com a Grécia, o "carro vassoura" da Zona EuroEm conclusão: este não é mais um problema. Este é, verdadeiramente, o problema central do país.

 

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