Rui Patrício
Rui Patrício 02 de julho de 2018 às 19:48

Autoajuda e o gato de Cheshire

Parece-me que o excesso de crença nestas coisas da autoajuda pode ter dois efeitos perversos. É tudo - como na vida em geral - uma questão de proporção. 

Se há coisa que o avanço da idade me ensinou é a tentar evitar as generalizações, que tendem a ser injustas, redutoras e/ou perigosas. Também fui aprendendo que há coisas que, mesmo que não façam muito bem, mal também não fazem, e isso em si já é um bem, sendo às vezes o efeito placebo uma bênção nada negligenciável. Todavia - e a vida é cheia de "poréns" -, não consigo evitar, confesso, alguma tendência para a generalização e até para o menosprezo no que diz respeito a livros e outros meios de autoajuda, que é uma coisa que está muito na moda, às vezes quase como se fosse uma religião ou um substituto - e mais apelativo, porque promete e anuncia para o curto prazo. Nunca fui dado a tais livros e coisas semelhantes, não por não precisar de ajuda (incluindo a auto), mas - assumo - por desconfiança ou mesmo por preconceito. Mas recentemente dei bastante atenção a um desses livros, não numa tentativa de esconjurar aqueles meus dois pecados, mas por consideração e dedicação a quem mo ofereceu. Li, reli, refleti, anotei, até tentei algumas receitas, mas não mudei muito de ideias.

 

Não me fez mal, antes pelo contrário, mas também não mudou a minha vida, e creio que não deixou sementes que venham a frutificar por aí além. O defeito pode ser meu, e dou o benefício da dúvida. Mas ali encontrei essencialmente o costume, ou seja, um misto de trivialidades, boas intenções e bom senso, e aqui e ali um toque de charlatanice. Não vem mal ao mundo, e se faz bem a quem consome, se ajuda a focar, a acreditar, a pensar, a olhar para si e para os outros, assim seja e ainda bem. E bem também faz a quem os escreve e os vende, já que o negócio parece ir de vento em popa. Mas cuidado, porque me parece que o excesso de crença nestas coisas da autoajuda pode ter dois efeitos perversos. É tudo - como na vida em geral - uma questão de proporção. 

 

São os seguintes esses possíveis efeitos: o individualismo e o desespero. Parece paradoxal, mas não é. A autoajuda é muito centrada no eu, mesmo quando os projetos ou as receitas recomendadas parecem orientados para os outros, porque mesmo aí o aparente centro nos outros resulta de eu precisar, de querer, de me sentir bem com isso, de isso ser o meio de dar um sentido à vida ("desenvolvimento pessoal", "potencial", etc.) ou de superar a insatisfação, a mediocridade e/ou o sofrimento, como se os outros não fossem um fim em si mesmo - kantiano, digamos -, mas um meio de satisfação do eu ("imbuído de propósito"). Por outro lado, e mais perigoso, corre-se o risco de a bondosa intenção da autoajuda dar em falhanço, quando afinal os passos e as receitas, no seu simplismo, não resultam, levando o utilizador mais desprevenido ou menos crítico a encontrar-se ainda mais sofrido do que estava antes. É que o milagre da autoajuda pode levar a esquecer duas coisas cruciais: uma, que a vida é muito complexa e o ser humano também; outra, que grande parte do que precisamos e somos não depende de nós, ou só de nós, mas muito dos outros. E a autoajuda nunca fornece heteroajuda.

 

É como o gato de Cheshire, em "Alice no País das Maravilhas". Tem um acolhedor e pronunciado sorriso, mas vai aparecendo e desaparecendo. Ele fala com Alice, dá-lhe pistas, até a ajuda a perceber certas regras do País das Maravilhas, mas é Alice que tem de descobrir e fazer o caminho, e em cada episódio depende muito das outras personagens. Aliás, e se bem leio, o gato listrado, apesar da sua aparente independência e do seu filosofar sedutor, afinal pertence à Duquesa.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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