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Filipe Santos 22 de Abril de 2020 às 09:40

Esperar o impensável e preservar o essencial

Os nossos líderes terão de pensar fora da proverbial caixa da ortodoxia económica. Esta crise não se resolve com soluções habituais. Aumentar o endividamento de empresas e famílias não é solução, é penso rápido.

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A covid-19 provocou uma paragem abrupta da economia global a partir de março. Durante semanas, em Portugal só se falou da crise sanitária, mas a partir do final de abril, com a gradual melhoria da situação sanitária no mundo ocidental, vai passar a falar-se essencialmente de crise económica pelo impacto devastador que terá no bem-estar dos portugueses.

A 23 de março, o NECEP – CATÓLICA-LISBON Forecasting Lab estimou o impacto da pandemia na redução do PIB português em 10%, com intervalo de variação entre 4% e 20% dependendo da severidade e duração da crise sanitária. Recentemente, o FMI aproximou-se deste cenário apontando para uma quebra do PIB de 8% em Portugal e de 7,5% na Europa em 2020. Estes números são maus e podem piorar.

Os números que afetam diretamente os portugueses são avassaladores. A 20 de abril mais de 1 milhão de trabalhadores dependentes estava em lay-off temporário. Um estudo do CESOP – Católica Sondagens, com dados de início de abril, mostra que 40% dos portugueses que antes estavam ativos já estão em lay-off, em assistência à família ou sem atividade. Será também uma crise assimétrica no nível de rendimentos: 36,8% dos portugueses já reportam quebra de rendimentos sendo que 42,8% são pessoas com rendimento inferior a 1.000 euros e 23,4% com rendimento superior a 2.500 euros.

A boa notícia é que as cadeias produtivas globais estão a mostrar-se resilientes e, dada a abertura gradual das economias previsto para maio, já não deverão colapsar. Assim, felizmente, não nos tem faltado a oferta de bens e serviços essenciais. Esta crise será, portanto, principalmente um choque global e profundo na procura mundial com efeito devastador em setores, como a aviação, o turismo, o comércio e os transportes.

Veremos o impensável em termos económicos. Maus recordes estão a ser batidos (22 milhões de pedidos de benefícios de desemprego nos EUA em quatro semanas) e certos mercados estão a colapsar (o excesso de petróleo é tão grande que já não há lugar para o armazenar pelo que o preço dos contratos futuros de petróleo tornou-se negativo!). À medida que os equilíbrios económicos tradicionais vão sendo abalados ouviremos mais notícias económicas insólitas, a par das taxas de juro negativas e perspetivas de deflação com que já vivemos.

Será a recuperação tão rápida como a queda – iremos crescer 5% em 2021 como prevê o FMI? Isso seria possível se pudéssemos hibernar as empresas e trabalhadores durante os meses covid. Aliás, o lay-off temporário é uma boa medida que permite essa hibernação parcial. Mas o problema é que durante uma paragem económica os rendimentos caem, o pessimismo instala-se, as relações económicas desagregam-se, o endividamento aumenta, muitas famílias e empresas vão à falência, capacidade produtiva e anímica é destruída. Tudo isso gera uma espiral recessiva que afunda a economia por um longo período, mesmo após passar a ameaça da covid-19. É essa espiral recessiva que temos de evitar.

Evitar esse cenário negativo depende de cada um de nós e de como nos comportarmos perante a crise, esperando o impensável, mas preservando o essencial. Deixo aqui algumas sugestões:

– União: a forma como nos unimos como nação para enfrentar a crise sanitária é um bom exemplo da atitude e liderança que precisamos para enfrentar a crise económica. Agora será mais difícil pois estará em causa não um combate a um vírus invisível que afeta todos, mas decisões sobre quem apoiar e como dar esse apoio. Mas essa união de todos em torno de medidas abrangentes é essencial.

– Preservar Relações Económicas: haverá um pós-covid e queremos ter de volta uma economia com creches, escolas, serviços, restaurantes, espetáculos, apoio doméstico e aos idosos, organizações sociais e comunitárias, pelo que precisamos de manter vivas as estruturas económicas que têm viabilidade no pós-crise. Quem manteve rendimentos deve manter agora as relações e contratos que façam sentido num período pós-crise, mesmo não recebendo temporariamente os serviços em causa.

– Solidariedade: a destruição de valor é grande e terá de ser partilhada entre todos, mesmo aqueles que estão numa situação privilegiada com rendimentos protegidos. Deveremos manter o apoio filantrópico que regularmente fazemos a organizações sociais e até aumentá-lo. Várias grandes empresas portuguesas tiveram a visão de antecipar o pagamento aos seus fornecedores para lhes dar liquidez neste período difícil. O Estado deve fazer o mesmo com todas as suas dívidas aos privados, o que aumenta a liquidez na economia sem aumentar o endividamento.

 

As soluções existem na Zona Euro, que tem moeda própria, basta ter criatividade e vontade de as implementar.



E finalmente, os nossos líderes terão de pensar fora da proverbial caixa da ortodoxia económica. Esta crise não se resolve com soluções habituais. Aumentar o endividamento de empresas e famílias não é solução, é penso rápido. Aumentar o endividamento dos Estados já endividados também não é solução, é receita para futura austeridade. A União Europeia terá de encontrar formas inovadoras de apoiar as pessoas, empresas e os Estados que não sejam através de linhas de crédito e mais endividamento. As soluções existem na Zona Euro, que tem moeda própria, basta ter criatividade e vontade de as implementar.

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