Internacionalizar a educação superior
A internacionalização das escolas é um eixo central da estratégia do ensino superior europeu. A proporção de estudantes internacionais no ensino superior aumentou significativamente na última década, com Portugal a apresentar um crescimento particularmente rápido. Programas como o Erasmus+ consolidaram a circulação académica como elemento central da construção do espaço europeu de educação. E instituições como o ISEG reforçaram a oferta de programas de licenciatura e mestrado em inglês, para atrair estudantes internacionais, acompanhando a tendência europeia.
A internacionalização da educação, em especial das escolas de economia e gestão, é frequentemente apresentada como uma nova “indústria exportadora”, com estudantes estrangeiros a trazem propinas, consumo local e projeção internacional. A entrada de alunos estrangeiros nas escolas traz diversas vantagens. Turmas multiculturais promovem o contacto entre estudantes, desenvolvimento de novas competências, acesso a redes internacionais de alumni, e a preparação para carreiras no mercado global. Por seu lado, as escolas ganham visibilidade internacional, ascendem nos "rankings" internacionais, e reforçam a capacidade para atrair parceiros académicos, docentes e projetos de investigação fora de portas. Por fim, a evolução demográfica nacional é contrariada, uma vez que deixamos de projetar jovens a entrar no ensino superior para a próxima década. A captação de alunos estrangeiros, de dentro ou fora da União Europeia, é uma resposta à contração do mercado interno, utilizando-se a capacidade instalada e a escala académica atual. Mas, será que a elevada taxa de atratividade internacional do ensino em Portugal justifica uma preponderância de alunos estrangeiros nos cursos oferecidos pelas universidades portuguesas, especialmente naquelas financiadas pelo orçamento de estado?
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Quando comparada com setores exportadores tradicionais, como o turismo, a educação tem uma lógica económica distinta. Grande parte dos alunos estrangeiros são oriundos da União Europeia. Ao abrigo do programa Erasmus+, por cada aluno que sai para uma experiência académica curta no espaço europeu, um outro deveria entrar em Portugal. Estes alunos regressarão depois às escolas de origem, para terminar os seus cursos, não se integrando no mercado de trabalho nacional. Os estudantes da União Europeia que vêm para Portugal fazer um curso completo, tipicamente de mestrado, pagam as mesmas propinas dos estudantes portugueses. Trocar vagas de mestrados portugueses por alemães, franceses ou italianos não traduz, necessariamente, receitas incrementais por estudante. O mesmo não acontece com alunos fora do espaço europeu, os quais pagam propinas mais elevadas que os colegas europeus. Se existirem vagas para todos, não há problema. O problema coloca-se na capacidade limitada de oferta se, cumulativamente, for financiada por impostos pagos pelos nacionais.
O impacto líquido da internacionalização na educação superior depende da capacidade de retenção de talento e da integração no mercado de trabalho nacional de alunos internacionais. Muitos graduados internacionais desabafam que não é fácil encontrar trabalho nas empresas portuguesas por causa da língua, além dos salários menos atrativos. Desta forma, a eficácia da internacionalização não deve ser medida apenas pelo número de estudantes estrangeiros, mas também pela capacidade de integração académica e profissional que as instituições conseguem oferecer em Portugal, preservando a diversidade e a ambição global, sem perder ligação ao tecido empresarial nacional. Caso contrário, arriscamos a deixar de fora os filhos dos portugueses que pagam os impostos que financiam os filhos dos europeus, muitos deles com bem mais recursos que os nacionais.
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