Miopia
As instituições de ensino superior portuguesas estão hoje perante três fortes fontes de pressão que as vão modificar radicalmente no futuro, admitindo-se mesmo que algumas não sobrevivam caso não encarem estes problemas com realismo e rapidez e implementem soluções de futuro.
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É, infelizmente, muito comum nas organizações que os seus membros pensem que as ameaças estão localizadas interiormente. Grupos de interesse organizam-se para conquistar o poder e assim governar os organismos fracos. São tanto mais fracos quanto menor é o poder estabelecido com base na detenção do capital ou em stakeholders estáveis e claramente definidos.
As universidades em geral, e as públicas em particular, padecem desse potencial problema quando não há uma clara maioria que comunga de uma visão voltada para o exterior.
As instituições de ensino superior portuguesas estão hoje perante três fortes fontes de pressão que as vão modificar radicalmente no futuro, admitindo-se mesmo que algumas não sobrevivam caso não encarem estes problemas com realismo e rapidez e implementem soluções de futuro: 1) o inverno demográfico que se está a instalar em Portugal; 2) o definhar da Europa como polo de desenvolvimento científico, tecnológico e até comercial e financeiro; e 3) a explosão da inteligência artificial como um ataque à forma como se aprende e trabalha. Cada uma destas forças de pressão é suficientemente forte para liquidar qualquer universidade ou instituto superior em cinco anos. Imagine-se quando as três forças se combinam!
Hoje vamos apenas focar-nos na segunda destas forças: a da retração da Europa como polo de atração do talento. Hoje a China é a segunda economia do mundo, mas já não é a fábrica da Europa nem dos EUA. A China aprendeu a fazer, mas agora está a desenvolver. Hoje é um polo de desenvolvimento tecnológico e científico que está muito à frente da maioria dos países ocidentais em termos de investigação e desenvolvimento e alcançou recentemente a liderança mundial em volume de investigação publicada. Consequentemente, porque é que a China deverá patrocinar a educação das suas novas gerações nas universidades europeias se a Europa deixou de estar na liderança do desenvolvimento tecnológico ou científico? Por que razão virão para a Europa as novas gerações de chineses, se os mercados produtores já não são tecnologicamente de ponta, deixaram de liderar cientificamente a investigação teórica ou aplicada, se os mercados de consumo não têm pujança que os leve a ser interessantes como objeto de estudo de casos e comportamentos, ou se nem os mercados de capitais são hoje florescentes e inovadores? Se o meio ambiente definhou na Europa, as universidades não podem ensinar o que não se sabe, não se cultiva, não se produz, não se exerce. Daí, o acentuado arrefecimento na procura da Europa por parte dos estudantes chineses. Mas pior: as universidades chinesas passaram a ser polo de atração do talento mundial. E em breve serão os europeus a concorrer feroz e desenfreadamente para as universidades chinesas, na expectativa de que é lá que está o conhecimento em que se querem educar.
Perante este quadro, é assustador ver a reação de muitos académicos portugueses que, sofrendo de uma profunda miopia, querem manter ou regressar a um passado que não vai existir.
O desafio é saber como é que o ensino superior em Portugal pode continuar a existir quando não há talento interno nacional suficiente para o alimentar em procura devido ao declínio demográfico, há polos externos mais fortes para o atraírem e quando a inteligência artificial nos propõe um admirável mundo novo. O futuro já começou.
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