2050
Aparentemente, pelas evidências que se têm vindo a acumular, nós, os humanos, teremos de saber afastar-nos da gulosa tecnologia digital se quisermos continuar a comandar os desígnios da Terra. E, por isso, a educação do futuro terá de ser ainda mais humana, mais relacional, mais personalizada e mais dispendiosa.
Uma das questões a que é mais difícil dar resposta é a do futuro do trabalho, das organizações e, naturalmente, da universidade. Durante décadas, a universidade formou gerações que alimentavam a religião, o poder, o desenvolvimento científico e tecnológico e, mais recentemente, a mão de obra qualificada para operar nesse mundo que a própria havia desenvolvido.
Nas últimas décadas, o mercado de trabalho começou a perceber que a formação de decisores em contexto organizacional é mais complexa do que se poderia pensar quando o trabalho era executado de forma repetitiva e simples. A fábrica dos “Tempos Modernos”, em que Chaplin, um dos trabalhadores, é apenas mais um robô na cadeia de montagem, em que a hiperespecialização da tarefa manual era a exigência, em que a qualificação máxima para a execução da tarefa era obtida ao fim de um ou dois dias de trabalho, permitia desqualificar qualquer tarefa manual, aumentar a disponibilidade da oferta de mão de obra e transformar essa mão de obra em mercadoria que o trabalhador vendia e o patrão comprava. Neste contexto, era inevitável o surgimento de uma interpretação das relações de trabalho como a proposta por Karl Marx. Neste ambiente, a gestão é a ciência da eficiência operacional e das cadeias de produção em série, em que a investigação operacional passou a dominar o conhecimento da gestão, à custa da perda de importância da visão comercialista e contabilística. O “gestor mangas de alpaca” dava lugar ao gestor-cientista, quase engenheiro.
Porém, com o desenvolvimento económico, o florescimento das classes médias e o aumento do seu poder de compra, bem como com uma crescente oferta de produtos, passámos a olhar para os métodos comerciais embrulhados numa nova palavra — "marketing" — de significado mais amplo. Este passou a cobrir toda a cadeia da oferta, desde a deteção da necessidade até ao acompanhamento do cliente após a venda. E a relação com as marcas e as empresas passou do âmbito da pura relação de troca para o domínio das relações afetivas. Todo este paradigma se aprofundou quando a economia passou a ser dominada pelos serviços.
Por isso, quando a economia passa a ser constituída por serviços em que a relação entre comprador e vendedor entra no campo das emoções, o trabalho deixa de ser uma mercadoria e a “hora-pessoa” passa do domínio do relógio para depender de uma complexidade de fatores que vai muito para além do conhecimento técnico. O conceito de trabalho amplia-se e o seu valor passa a depender de toda uma gama de características do seu operador, hoje exigidas pelas organizações onde trabalhamos. Assim, às universidades deixou de se pedir apenas conhecimento técnico e científico. Pede-se mais: formação assente em valores, propósito, relações, experiências, entre outros.
E com a inteligência artificial e os novos robôs que a tenham incorporado, como será? Aparentemente, pelas evidências que se têm vindo a acumular, nós, os humanos, teremos de saber afastar-nos da gulosa tecnologia digital se quisermos continuar a comandar os desígnios da Terra. E, por isso, a educação do futuro terá de ser ainda mais humana, mais relacional, mais personalizada e mais dispendiosa.
Quando observamos a proposta de congelamento de propinas a par da redução das transferências orçamentais para as universidades, antecipamos o desfecho para o qual nos encaminhamos: uma elite educada em universidades-boutique, dominando exércitos de trabalhadores meio ociosos, formados em universidades massificadas e subfinanciadas, orientadas para consumir o produto digital que simultaneamente alimenta e aliena.
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