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Maria de Fátima Carioca - AESE
09:15

IA: para onde vamos?

Perdemos a nossa capacidade de colaborar criativamente uns com os outros se transferirmos a nossa responsabilidade pessoal de emitir julgamentos para as máquinas.

A recente Encíclica “Magnificat Humanitas” (MH) do Papa Leão XIV insere-se na longa tradição da doutrina social da Igreja que todos os Papas, desde Leão XIII, foram construindo. Verdade seja dita que se esperava esta Encíclica desde a sua eleição, dado o nome que escolheu para si mesmo. Há 135 anos, o seu predecessor de igual nome, em plena transformação industrial, alertou e apontou caminhos de solução para as novas situações de fragilidade e pobreza vividas por muitos operários, famílias desenraizadas, idosos e desempregados. Hoje estamos, de novo, num momento-chave da história da humanidade ao qual nem a Igreja, e nem cada um de nós, pode permanecer indiferente. A transformação tecnológica é igualmente (ou ainda mais) profunda e veloz, com consequências económicas, sociais e humanas que têm impacto no trabalho e na forma como o realizamos, nas famílias, nos socialmente mais vulneráveis, como os idosos, desempregados e migrantes, na própria política e nos conflitos ao nível global. Por trás destas preocupações específicas, reside uma verdade mais profunda: o progresso tecnológico não é necessariamente sinónimo de progresso moral e humano.

Na realidade, poucos se questionam sobre o propósito que a IA devia servir, nem se a nossa mentalidade, as instituições e os mecanismos de controlo atuais são capazes de orientar a tecnologia para o bem-comum e o bem-estar humano, em geral.

É, por isso, de saudar que o Papa Leão XIV reflita sobre este tema na sua primeira Encíclica, descrevendo o atual percurso da IA como uma profunda ameaça à dignidade humana. Muitas são as vozes que há muito defendem que os resultados impulsionados pela tecnologia são uma questão de escolha e não de “fado”. Uma escolha que se concretiza em decisões pessoais e coletivas. "A tecnologia nunca é neutra, porque assume as características daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam" (MH9).

O facto de algo ser tecnicamente viável não significa, por si só, que seja benéfico para a humanidade. O facto de uma tecnologia ser desejável depende de quem a controla e da ideologia e dos interesses que orientam esses responsáveis. No fundo, jaz a questão fundamental: para onde vamos? Para que deve a IA ser concebida e orientada? Talvez não saibamos responder, de forma concreta e abrangente, a esta pergunta porque a IA permitirá chegar a horizontes nunca antes contemplados, mas, pelos efeitos que vamos sentindo e observando, podemos responder ao para onde não queremos ir ou, ainda melhor, o que não queremos perder.

O documento do Papa Leão XIV, consistente com a toda a Doutrina Social da Igreja e muito na continuidade da mensagem do Papa Francisco, alerta para as novas e diversificadas formas de vulnerabilidade humana e de como a IA está a aumentar esta vulnerabilidade seja ao nível das pessoas, seja ao nível da relação entre países. Contudo, este documento vai mais longe, chega ao íntimo da pessoa humana, destacando quatro preocupações relativas à influência da IA no nosso desenvolvimento como pessoas, seres humanos, nomeadamente em relação às nossas capacidades de aprender, experimentar, compreender, julgar e decidir. 

Um primeiro alerta diz respeito à salvaguarda da nossa capacidade intelectual para alcançar a verdade (MH134), a nossa responsabilidade de apreender a verdade nas diversas circunstâncias. Perdemos a nossa capacidade de colaborar criativamente uns com os outros se transferirmos a nossa responsabilidade pessoal de emitir julgamentos para as máquinas. A verdade reside em nós próprios e na relação com os outros, crescendo na consciência de quem realmente somos e de quem somos, pessoal e coletivamente, chamados a ser.

Um segundo alerta diz respeito à preservação da liberdade interior. Todos reconhecemos que as plataformas digitais são concebidas para captar o nosso tempo e a nossa atenção, explorando a nossa vulnerabilidade e enfraquecendo a nossa liberdade interior. Na realidade, podemos saber muitas coisas, mas carecer de um sentido de propósito. Os seres humanos podem não só conhecer um conjunto de factos, mas também dar um sentido coerente à informação, construindo assim uma visão do mundo. Hoje, deixamos muitas vezes de nos esforçar por conhecer o todo e limitamo-nos ao mero reconhecimento de aspetos parciais que nos chegam pelos diversos canais a que acedemos. O Papa Leão argumenta que a “manutenção da liberdade interior requer uma atitude saudável, caracterizada por ritmos que envolvem silêncio, estudo aprofundado, leitura e análise cuidadosa”. (MH146)

Um terceiro aspeto é o facto de a verdade ser relacional. Os dados e os factos são a base, mas não formam o conhecimento. O conhecimento "é profundamente relacional, pois constrói-se através de laços de confiança e práticas partilhadas, bem como de uma troca honesta com os outros e com o mundo". (MH132). A natureza social e relacional da aprendizagem é enriquecida pelas experiências vividas, relações, emoções, alegrias e tristezas. O crescimento pessoal em humanidade acontece na família, com os amigos e em comunidade. Como diz o provérbio, é necessária uma aldeia para educar uma criança. O conhecimento é, fundamentalmente, comunitário porque está profundamente enraizado na nossa confiança mútua e na nossa abertura ao diálogo. Tudo isto dificilmente é alcançado através da IA, sobretudo se recorremos à IA para aprender, e descuramos o aprender uns com os outros. Esta atomização da aprendizagem destrói o património partilhado das comunidades. Aprendemos melhor quando somos estimados e encorajados a ter confiança nas nossas capacidades.

Por último, a rapidez da IA pode extinguir o desejo de fazer perguntas. Consumimos informação sem nos questionarmos, tal a quantidade de dados e a velocidade a que nos chegam novos dados. Não temos humanamente capacidade para os entendermos e “processarmos”. Vamo-nos tornando escravos do paradigma tecnológico dominante. Esta é uma grande questão para a educação. Um alerta à sua reinvenção de forma a realizar plenamente as nossas capacidades cognitivas face ao mundo e ao que observamos.

Feito o diagnóstico a questão permanece: "para onde vamos? Que direção devemos escolher como povo e como comunidade humana?" (MH6) Questões para serem respondidas por todos nós. Sim, por cada um. “Precisamos de mais do mundo — comunidades religiosas, sociedade civil, estudiosos, governos e, de facto, todas as pessoas de boa vontade — para fazer o que Sua Santidade fez aqui: levar isto a sério, olhar de perto e impulsionar os acontecimentos numa direção melhor”, pedia-nos o cofundador da Anthropic, Chris Olah, na apresentação da Encíclica. A resposta é nossa, pessoal e coletivamente. O caminho para o futuro da nossa magnífica humanidade é nosso. É tempo de avançarmos, em conjunto, sempre com esperança e coragem!

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