A água: o recurso mais disputado no séc. XXI
Sabia que, em 2025, a água vai começar a faltar, de forma estrutural, em Portugal? Ou que a linha de risco de desertificação, em Portugal já passa a Norte do Tejo? Ou ainda que as temperaturas actuais, nos próximos anos, irão subir 2ºC e que, até 2050, ir
Subjacente a todas estas questões está um recurso que é transversal e que será o activo mais precioso – cada vez mais escasso e cada vez mais disputado – do séc. XXI: a água.
O negócio das águas minerais engarrafadas, por exemplo, transformou-se num dos sectores mais lucrativos e de maior expansão no mundo, dominado até há pouco tempo pela Nestlé e pela Danone. Agora, estas duas multinacionais têm a concorrência directa das empresas proprietárias da Coca-Cola e da Pepsi.
As companhias francesas Suez-Ondeo e Vivendi-Veolia, por si só, administram a distribuição de água para um universo superior a 250 milhões de pessoas, sem considerar todas as participações indirectas que possuem e que acrescenta, em pelo menos mais 100 milhões, os seus consumidores actuais.
O Banco privado suíço Pictet prevê que, em 2015, as empresas privadas fornecerão água potável a cerca de 1.750 milhões de consumidores. Neste contexto, não é nada surpreendente constatar que as companhias de gestão de água têm vindo a ser objecto de um número incrivelmente elevado de transacções em todo o mundo.
O último caso significativo é o da Thames Water, a maior empresa hídrica do Reino Unido e a número três mundial, comprada agora pelo banco australiano Macquarie à alemã RWE por
€ 14 mil milhões, isto depois de a RWE, um gigante energético europeu, a ter adquirido, em 2000, por € 7,1 mil milhões.
No momento em que Margareth Thatcher privatizou a água, em 1989, afirmou que para os britânicos não era importante saber quem a distribuía, mas sim os benefícios potenciados por serviços de alta qualidade e a preços competitivos. A verdade é que a privatização da água não deu resultados notáveis em relação aos preços – antes pelo contrário, os aumentos foram consideráveis – nem quanto à qualidade – recentemente a Thames Water foi punida por não ter reduzido os níveis de perda de água para os valores a que se obrigara.
Os britânicos, por outro lado, consideram irrelevante a nacionalidade do gestor da água do Tamisa. De facto, a Thames Water passou, em 15 anos, da propriedade de um organismo público para a de uma empresa privada britânica, depois para uma companhia energética alemã e agora para um Banco australiano. Não se pode descartar que, dentro de pouco tempo, a Thames Water passe a pertencer, por exemplo, a uma empresa chinesa especializada no tratamento de lixo urbano.
Também em Portugal, o sector das águas está a dar os primeiros passos para uma gradual evolução, estando o Estado ainda à procura do caminho mais adequado. Há quem defenda a manutenção de uma “presença estatal forte”, há quem defenda uma maior liberalização “à inglesa”. O regulador, entretanto, admite que o capital das Águas de Portugal venha a ser aberto a privados, mas sempre e apenas em minoria. De qualquer forma, o que mais importa é que o negócio venha sempre a ser gerido no respeito pelos valores da ética e da transparência, pois estamos perante um bem escasso e vital. De facto, é previsível que, em 2025, a América do Sul e a Europa do Norte sejam as únicas regiões sem problemas de falta de água. Os que vivem nas zonas afectadas – entre os quais os portugueses – terão de deslocar-se ou, em alternativa, começar imediatamente a adoptar alternativas, como, por exemplo, o recurso às centrais de dessalinização e à energia solar, para além de adoptar hábitos racionais na utilização da água. É que 2025 é já amanhã!
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