A culpa é vossa
Quase 10 meses depois, regresso à escrita sobre os mercados. Quem diria que o faria citando José Mário Branco, numa canção com o curioso título de FMI , escrita há mais de 30 anos.
"A culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa!" José Mário Branco, in "FMI"
José Mário Branco, in "FMI"
Durante um ano de escritos aqui no Jornal de Negócios, sublinhei o erro típico dos pequenos investidores de nunca assumirem os seus erros e preferirem culpar a Comunicação Social, os manipuladores, as corretoras e a CMVM pelos seus fracassos. Os responsáveis políticos portugueses estão a fazer o mesmo. A culpa nunca é nossa.
Nos últimos 2 anos, os governantes nacionais responsabilizavam sempre a conjuntura internacional pela debilidade da nossa Economia. Nos últimos meses, com a alteração do “rating” de Portugal, as agências de Rating passaram a estar debaixo de fogo. Por último, acusaram os “malvados especuladores” de querer atacar Portugal para enfraquecer o euro. Os especuladores acabam por ser o alvo perfeito já que não têm rosto nem se podem sequer defender.
Não deixa de ser curioso que, quando o Euro se valorizou cerca de 100% face ao Dólar, não vimos os governantes insurgirem-se contra esse movimento. Agora que o Euro se desvalorizou cerca de 25% tudo isso é considerado obra dos especuladores. A coerência está longe de ser uma característica dos políticos dos dias de hoje. O que importa é que a culpa nunca seja nossa. É sempre dos outros, mesmo que não tenham rosto, quais fantasmas que se acenam sempre na hora mais conveniente.
Mas falemos de Bolsa. Em Março do ano passado, escrevi um artigo onde defendi que deveríamos estar próximos de subidas fortes. Os argumentos não tinham a ver com a melhoria das condições económicas mas sim com o atingir de um ponto extremo ao nível do pessimismo. Acreditava eu que o mercado já tinha descontado todas as más notícias e a verdade é que se seguiram meses de subidas que – confesso - foram muito maiores e duradouras do que eu esperava. Na altura, estabeleci um valor que considerava ser a fronteira entre um ressalto e um “Bull Market” duradouro: Os 8900 pontos. Curiosamente, foi precisamente junto a essa resistência que o PSI começou a dar os primeiros sinais de fraqueza em Outubro do ano passado, confirmando essa mesma resistência no início deste ano.
Até que esses 8900 pontos sejam quebrado, em alta, mantenho-me cauteloso. Tal como disse, a fraqueza da nossa Bolsa já tem 7 meses, altura em que os restantes mercados mundiais continuaram a subir e a praça portuguesa foi sendo incapaz de manter essa trajectória ascendente. Enquanto o principal índice português não ultrapassar esse “tecto” dos 8900 pontos e mostrar que quebrou esta tendência descendente dos últimos meses, manterei as minhas reservas em relação ao nosso mercado e todas as subidas que forem acontecendo devem ser encaradas como meros ressaltos.
Porquê esta fraqueza da Bolsa portuguesa face ás suas congéneres? O aumento da tributação das mais valias, a diminuição do “rating” da República portuguesa mas, sobretudo, o continuar da deterioração económica do país. Fica bem aos políticos adoptarem uma postura nacionalista, defendendo a pátria, mas talvez seja preferível tentarem perceber o que nos levará a sair daqui já que, na minha opinião, continuamos apenas a navegar á vista, seguindo a rota que a Europa nos vai traçando.
Felizmente que a culpa não é nossa. A culpa nunca é nossa. É vossa. Para comentar o artigo de Ulisses Pereira no Caldeirão de Bolsa clique aqui
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