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Kenan Mortan
06 de Maio de 2010 às 12:10

A queda da "economia dos mullahs" no Irão

À medida que prossegue o conflito entre as forças governamentais e a oposição iraniana, um factor que pode determinar esta situação - e de que raramente se fala - é o estado calamitoso da economia iraniana. Poderá o lamentável desempenho da economia...

À medida que prossegue o conflito entre as forças governamentais e a oposição iraniana, um factor que pode determinar esta situação - e de que raramente se fala - é o estado calamitoso da economia iraniana. Poderá o lamentável desempenho da economia determinar o resultado deste conflito?

O desempenho da economia iraniana tem sido difícil desde a Revolução Islâmica, em parte devido ao embargo imposto pelos Estados Unidos há três décadas. Actualmente, o Irão sofre de escassez de produtos tecnológicos; o país que foi o segundo maior produtor de petróleo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) tornou-se um importador líquido de produtos petrolíferos refinados. De facto, as condições na indústria petrolífera deterioraram-se tanto, que em 2007 foi necessário começar o racionamento de gasolina, abrindo caminho a um florescente mercado negro.

Sem surpresa, esta escassez gerou inflação. Em Novembro de 2009, o banco central iraniano (Banco Markazi) reportou uma subida anual de 22% do nível dos preços. Para estimular o investimento, foram implementadas novas medidas que permitiram aos bancos estrangeiros entrar no sistema financeiros iraniano. Muitos bancos solicitaram a entrada mas até agora não foi concedida nenhuma licença.

Um claro sinal do mau estado da economia do Irão pode ser encontrado na relação entre o Irão e a Turquia. Os vínculos comerciais entre os dois países são antigos e arraigados. Esta relação deveria ter beneficiado com a visita do presidente Mahmoud Ahmadinejad à Turquia em 2008. Na altura ficou decidido que o comércio bilateral iria duplicar para 20 mil milhões de dólares em 2011 e alcançar os 30 mil milhões em 2012. O governo turco até permitiu que os exportadores turcos facturassem em riais iranianos.

No entanto, enquanto os líderes antecipavam este futuro cor-de-rosa, oito dos maiores investidores turcos no Irão abandonavam o país. Segundo uma das empresas, "as condições de investimento não eram claras no Irão". Esta empresa saiu sem a compensação da sua participação de 60% numa empresa que tinha criado.

Outros investidores turcos expressaram queixas semelhantes. Cesur Ambalaj saiu do país "devido a promessas que ficaram por cumprir". A TAV Holding, que ganhou o concurso para a construção do novo aeroporto Khomeini em Teerão, nunca teve a oportunidade de iniciar a obra.

Outra empresa, a Gubretas, que comprou a Razi, uma das maiores empresas petroquímicas do Irão, por 650 milhões de dólares em 2008, ainda não conseguiu iniciar a produção devido a restrições administrativas. Além disso, a estrada destinada a camiões entre o porto turco de Trabzon no Mar Negro e o porto iraniano de Bandar Abbas ainda não foi materializada devido à hesitação do Irão.

A lista de contratempos e de oportunidades perdidas é longa. Segundo o vice-presidente do Conselho Empresarial Iraniano-Turco "é muito difícil fazer negócios no Irão". Um antigo diplomata turco no Irão descreveu o clima empresas em termos duros: "nos negócios com os parceiros estrangeiros, é como se os iranianos preferissem um resultado em que todos perdem a um um em que todos ganham".

Que lições se podem tirar do fracasso das empresas turcas no Irão? Alguns culpam as terríveis infra-estruturas e os elevados impostos nas estradas. Outros sugerem que o quase não existente sistema bancário é o culpado. Outros ainda culpam a "mão invisível dos Estados Unidos", que supostamente teme que o Irão e a Turquia se tornem demasiado poderosos.

Mas a causa real da disfuncional economia do Irão é a peculiar repartição do poder político e económico do país. De acordo com o Fundo Monetário Internacional, a economia iraniana é controlada, quase na totalidade, pelos actores políticos. Vinte mil empresas públicas consomem 65% do rendimento nacional e gerem 80% das exportações e 50% do comércio interno. A quota de mercado dos bancos estatais é de 85%.

Estas empresas públicas constituem a chamada economia bonyad. Uma bonyad é uma fundação com fortes ligações às autoridade religiosas e, na prática, gerida, por elas. Através das bonyads, os mullahs (título de líder religioso) têm uma palavra a dizer na maioria dos negócios comerciais e de produção.

Paralelo às bonyads, surgiu outra rede económica em torno do basij, a força paramilitar ligada aos pasdaran (Guardas da Revolução), que por sua vez têm ligações próximas a Ahmadinejad. Desde a sua chegada à presidência, Ahmadinejad tem encorajado esta economia basij e, actualmente, os pasdaran recebem licenças de comércio e uso e controlo exclusivo de alguns portos.

Muitas vezes estas duas redes estão em concorrência - ou em conflito - uma com a outra devido à actual turbulência política iraniana. Para aumentar a confusão, outro grupo, os sarrafs (têm como função principal a concessão de empréstimos privados) são a ligação chave entre os investidores estrangeiros e o lado iraniano, quer sejam basij ou bonyad.

Têm licenças de comércio (karti bazargani) que os estrangeiros não possuem e, consequentemente, também fazem parte de todos os contratos comerciais. Perante estas circunstâncias, não é surpreendente que fazer negócios no Irão seja um pesadelo.

Estes conflitos internos pioraram com a crise política interna e com a crise económica global. A irracionalidade parece ter tomado conta da situação. Por exemplo, os mullahs iranianos encerraram a rota aérea entre Teerão e Antalya porque permitia aos iranianos ter acesso a actividades "pecaminosas". Esta rota foi substituída por uma rota entre Teerão e Esparta, que obriga os iranianos a voar mais 140 quilómetros para chegar ao destino.

Invadido por um pensamento tão tacanho, o Irão parece incapaz de avançar mesmo nas políticas mais importantes. Por exemplo, o Irão ainda não ratificou acordos internacionais como o Acordo de Comércio da Organização de Cooperação Internacional (ECOTA, sigla em inglês), que poderia fortalecer os laços económicos com os seus vizinhos, todos países muçulmanos.

É usual afirmar que os momento mais perigoso para um país é quando este começa a realizar reformas. A economia iraniana têm ainda de chegar a esse momento e será, claramente, mais perigoso para o regime se não fizer nada do que começar a abrir o actual sistema fechado e estancado.

Kenan Mortan é professor de Economia na Universidade Mimar Sinan em Istambul. O seu último livro é sobre o Grande Bazar de Istambul.

© Project Syndicate, 2010.

www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Luísa Marques

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