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Felipe Martins - Head of Office and Consultant na CATÓLICA-LISBON, Research Fellow no Center for Responsible Business and Leadership.
20 de Junho de 2026 às 16:00

O novo mapa do poder económico global

Quem define as prioridades coletivas quando parte crescente da capacidade de agir está fora das instituições democraticamente eleitas?

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Uma reflexão sobre a concentração do poder corporativo, o eixo Estados Unidos-China e os desafios para a sustentabilidade, a Europa e a democracia.

Em 2016, a Oxfam, num estudo também divulgado pela Global Justice Now, "The world’s top 100 economies", chamou a atenção para uma realidade particularmente expressiva: entre as 100 maiores entidades económicas do mundo, 69 eram empresas e apenas 31 eram países. Uma década depois, uma reavaliação conduzida pelo Center for Responsible Business and Leadership, da Católica-Lisbon SBE, em junho de 2026, mostra que o padrão se mantém. Entre as 100 maiores entidades económicas globais, medidas em termos de receita, 67 são empresas.

Mais do que discutir se são 67 ou 69, importa compreender o que este resultado revela. Em 2016, o dado central era que muitas empresas já rivalizavam com países em escala económica. Em 2026, a questão vai além da escala: algumas destas empresas controlam infraestruturas, tecnologias, cadeias de abastecimento, fluxos financeiros e sistemas de intermediação essenciais ao funcionamento da economia global. Empresas como Walmart, Amazon, China National Petroleum, Apple, Microsoft, Saudi Aramco ou State Grid não são apenas grandes organizações. São atores com capacidade para influenciar preços, emprego, tecnologia, energia, cadeias de abastecimento, financiamento, sustentabilidade e decisões políticas.

Naturalmente, comparar receitas empresariais com receitas públicas nacionais não significa equiparar empresas e Estados em todas as dimensões de poder. Um Estado possui autoridade legal, responsabilidade pública, capacidade fiscal, território e legitimidade democrática. Uma empresa não. Ainda assim, a comparação é relevante porque mostra a escala económica relativa destes atores e a sua crescente capacidade de produzir efeitos públicos a partir de decisões privadas.

Este é o ponto central. A tensão não é a existência de empresas grandes, mas no facto de decisões privadas poderem produzir consequências públicas sem mecanismos proporcionais de escrutínio, responsabilização e correção democrática. A escala económica, por si só, não é ilegítima. Mas a escala económica combinada com influência política, controlo tecnológico, capacidade financeira e presença em setores estratégicos levanta uma questão essencial: quem define as prioridades coletivas quando parte crescente da capacidade de agir está fora das instituições democraticamente eleitas?

Os dados mostram uma forte concentração deste poder. Das 67 empresas presentes entre as 100 maiores entidades económicas globais, 31 têm origem nos Estados Unidos e 19 na China. Em conjunto, estes dois países concentram cerca de três quartos das maiores empresas identificadas. Isto significa que o poder corporativo global não está distribuído de forma equilibrada. Está concentrado no eixo Estados Unidos-China.

Esta concentração deve ser lida para além do número de empresas. Nos Estados Unidos, a presença empresarial é particularmente forte em tecnologia, retalho, saúde, energia, finanças e plataformas digitais. A China, por sua vez, surge com forte presença em energia, banca, construção, infraestruturas, indústria, telecomunicações e comércio digital. Em ambos os casos, as grandes empresas são centrais para a influência económica e geopolítica.

A Europa ocupa uma posição mais frágil e fragmentada. Mesmo considerando a Europa alargada, incluindo o Reino Unido e a Suíça, o continente representa apenas 11 das 67 empresas identificadas. Se considerarmos apenas a União Europeia, o número desce para sete. Este dado reforça um dilema estratégico já conhecido: a Europa continua a ser central na regulação, na proteção de direitos e na definição de "standards", mas tem menor capacidade de gerar empresas com escala global nos setores que hoje estruturam o poder económico contemporâneo. A Europa regula, mas nem sempre lidera. Protege, mas nem sempre controla as tecnologias de que depende.

Este debate torna-se ainda mais importante num momento em que o multilateralismo está sob pressão. O trumpismo não representa apenas uma mudança de estilo político. Representa uma visão do mundo assente no nacionalismo económico, na desconfiança face à cooperação internacional, na relativização dos compromissos climáticos, na hostilidade perante a regulação e na substituição do multilateralismo por uma lógica transacional de curto prazo.

É aqui que a liderança responsável deixa de ser apenas uma discussão de gestão e passa a ser uma questão democrática. As grandes empresas podem ser parte da solução para muitos dos desafios contemporâneos. Têm recursos, talento, tecnologia e capacidade de execução que muitos Estados já não conseguem mobilizar com a mesma rapidez. Podem acelerar a transição energética, financiar inovação, transformar cadeias de abastecimento e desenvolver soluções com impacto social e ambiental significativo.

Mas esse potencial não deve ser confundido com legitimidade automática. Relatórios ESG, metas climáticas ou referências aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável não bastam. O essencial é saber se o modelo de negócio contribui, de facto, para uma economia mais justa, resiliente e sustentável. A sustentabilidade não é um luxo dos períodos de estabilidade, é uma condição para a prosperidade futura. Num mundo mais fragmentado, em que as empresas acumulam escala, recursos e capacidade de ação, a pergunta já não é apenas se criam valor, mas se esse valor reforça ou fragiliza as sociedades onde operam. O desafio, agora, é garantir que esse poder seja orientado por responsabilidade, boa governança e compromisso com o interesse coletivo. Essa é uma tarefa coletiva e, uma condição para que o mercado continue compatível com sociedades livres, coesas e sustentáveis.

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