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Luis Queiros 13 de Abril de 2009 às 12:03

O erro de Malthus

No início do século XIX, ainda antes da revolução industrial, o clérigo inglês Thomas Malthus apresentou uma teoria que predizia um cenário catastrófico para a Humanidade, caso o crescimento populacional se mantivesse...

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No início do século XIX, ainda antes da revolução industrial, o clérigo inglês Thomas Malthus apresentou uma teoria que predizia um cenário catastrófico para a Humanidade, caso o crescimento populacional se mantivesse a uma taxa constante. Isto porque, dizia Malthus, os recursos alimentares iriam crescer mais lentamente, e não seriam suficientes para alimentar essa população.

Felizmente esse cenário não se verificou. Embora a população tivesse crescido de forma continuada, os recursos disponíveis foram suficientes para a alimentar. E, no entanto, sob o ponto de vista matemático, o argumento de Malthus era inatacável. De facto, uma progressão aritmética (os recursos) e uma progressão geométrica (a população) ligadas ente si (a ligação entre as duas seria o consumo per capita dos recursos) acabam por divergir de forma incontornável.

Na base da teoria de Malthus está o crescimento exponencial da população, algo que ainda hoje atrai a nossa atenção. No dizer do Prof. Albert Barthlet, da Universidade do Colorado, um neo-malthusiano assumido, "o maior defeito do pensamento humano é não entender as consequências do crescimento exponencial". E acrescenta como exemplo: se a população do planeta crescesse nos próximos 700 anos, com a mesma taxa que cresceu nos 700 anos anteriores, haveria um habitante por m2 à superfície da parte emersa do planeta, incluindo desertos, montanhas e florestas.

As teorias de Malthus tiveram uma grande influência no pensamento económico dos anos seguintes, e ainda hoje muitas das suas ideias são revisitadas. Sobretudo em épocas de crise, quando o crescimento económico se apresenta menos resoluto.

Afinal o erro de Malthus foi o de não ter previsto que os recursos à disposição da Humanidade iriam crescer também de maneira exponencial, nos 180 anos que se seguiram. Mas isso nunca ele poderia ter previsto, porque esses recursos ainda não eram conhecidos. Tratava-se das imensas reservas de energia fóssil (carvão, petróleo e gás natural) que a natureza acumulou durante milhões de anos. Essas reservas (mais do que a tecnologia ou do que o aumento da produtividade!) têm permitido assegurar o crescimento exponencial dos recursos, exigido pelo crescimento da população, também ele exponencial.

Curiosamente, em 1972, aparece um outro estudo, encomendado pelo Clube de Roma. Trata-se do famoso "Limites do Crescimento", da autoria de uma equipa de cientistas que usaram um modelo desenvolvido pelo professor Jay Forrester, do MIT. O estudo retoma as ideias do crescimento exponencial da população e do consumo dos recursos, e do seu conjecturável esgotamento. E volta a falar da iminência de uma catástrofe.

Quase quarenta anos passados sobre essa publicação, de novo parece não se terem confirmado tais previsões. Porém alguns autores, mais pessimistas ou mais prudentes, aconselham a não tirar conclusões precipitadas. E o estudo continua a ocupar muitas páginas e a gerar muita discussão.

São muito complexos os pressupostos destes estudos. E previsões a longo prazo adequam-se mal ao entendimento da mente humana, para quem "as maiores preocupações cabem na milha quadrada que nos rodeia, e nas duas semanas que sucedem ao dia de hoje". Além disso as previsões têm, de um modo geral, subavaliado o engenho e a capacidade do ser humano para ultrapassar as dificuldades.

No actual momento de crise, volta a falar-se insistentemente na necessidade de gerir uma economia de crescimento zero, e nas implicações que isso poderá ter para a manutenção do sistema de mercado e de consumo. E nas nefastas consequências para o agravamento das assimetrias mundiais entre ricos e pobres.

Na voracidade de uma crise em que os activos financeiros parecem desaparecer sem deixar rasto, uma das lições que vamos aprendendo é que, afinal, ao contrário do que pensávamos, o dinheiro não é necessariamente um recurso. Ou melhor, só o será numa economia em crescimento contínuo, geradora de expectativas que permitam viabilizar e remunerar o crédito bancário.

Hoje, de uma forma mais refinada, fala-se de novo da finitude do Planeta, dos limites do crescimento, das alterações climáticas, da escassez dos recursos hídricos, do pico da energia fóssil. E o fantasma de Malthus persiste em nos acompanhar. Temos de o exorcizar de uma vez por todas.

Presidente Grupo Marktest
Membro da ASPO- Portugal
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