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Robert Skidelsky - Economista
29 de Dezembro de 2010 às 12:35

Os desenfreados anos 30

A última cimeira do G-20, realizada em Seul, terminou sem qualquer acordo em relação às moedas ou ao comércio.

A China e os Estados Unidos acusaram-se mutuamente de manipulação deliberada das suas moedas para obterem vantagens comerciais. A Ronda de Doha dedicada às conversações globais sobre comércio continua num impasse. E enquanto prosseguem os debates sobre os “riscos” de novas guerras cambiais e comerciais, essas guerras já começaram.

Assim, e apesar de os líderes globais prometerem que isso não vai suceder, tudo indica de que a inquietante precedente proteccionista dos anos 30 está prestes a regressar à vida. A guerra comercial daquela década foi iniciada pelos Estados Unidos, com a tarifa Smoot-Hawley de 1930. Os britânicos retaliaram com a Lei das Taxas Alfandegárias sobre as Importações, de 1932, seguida da Preferência Imperial. Em pouco tempo, a economia mundial estava repleta de barreiras comerciais.

A Grã-Bretanha deu o tiro de partida na guerra cambial da década de 30, ao abandonar o padrão ouro em Setembro de 1931. Os Estados Unidos retaliaram, fazendo precisamente o mesmo em Abril de 1933. A libra esterlina desvalorizou face ao dólar e depois o dólar desvalorizou face à moeda britânica.

Enquanto as duas principais moedas se degladiavam, a França encabeçava um “bloco do ouro” de países europeus cujas moedas estavam cada vez mais sobrevalorizadas face ao dólar e à libra, até que o bloco se desmoronou em 1936. Uma conferência económica mundial, realizada em Londres em 1933 para acabar com a guerra mundial, foi adiada sem que se chegasse a qualquer decisão.

Substituamos a China pela Grã-Bretanha e a actual Zona Euro pelo bloco do ouro e perceberemos que a tendência dos actuais acontecimentos tem o mesmo ar inquietante.

A Reserva Federal (Fed) norte-americana propõe agora estimular a economia dos Estados Unidos através da emissão de mais dinheiro – uma segunda ronda de quantitative easing”, ou QE2 [programa alargado de compra de Obrigações do Tesouro e outros títulos de dívida, com o objectivo de baixar os juros destes activos e encorajar, assim, compra de títulos mais arriscados, como acções], desta vez no valor de 600 mil milhões de dólares adicionais. Praticamente ninguém se lembra de que o presidente norte-americano Franklin Roosevelt tentou a mesma coisa em 1933. Os preços começaram a descer em Setembro desse ano, a seguir a um breve período de expansão das matérias-primas. George F. Warren, professor de gestão agrícola na Universidade de Cornell, disse a Roosevelt que a forma de aumentar os preços consistia em reduzir o valor em ouro do dólar.

Nos termos do padrão ouro, o dólar era convertível em ouro a um preço fixo de 20,67 dólares por onça. Para estabilizar o nível de preços, o economista Irving Fisher concebeu um plano para um “dólar compensado”, que permitia que o valor em ouro do dólar variasse de modo a compensar a subida ou queda dos preços, permitindo efectivamente à Fed emitir mais ou menos dólares em função da situação económica.

Em resposta à pressão deflacionista, o plano de Fisher teria permitido aos bancos diminuírem as suas reservas e assim, supostamente, aumentarem as concessões de empréstimos (ou criarem depósitos). As despesas suplementares assim geradas fariam os preços subirem, o que por sua vez estimularia a actividade económica. Fisher propunha uma nova lógica para uma velha prática que consistia em reduzir o valor de uma moeda através do aumento do seu conteúdo em metal e que se chamava senhorinhagem.

A variante proposta por Warren, e que foi adoptada por Franklin Roosevelt em 1933, consistia em aumentar o preço a que o governo comprava o ouro da casa da moeda. Uma vez que um preço mais alto significava que cada dólar custava menos em termos de ouro, o resultado seria o mesmo que com o plano de Fisher. Os preços a nível doméstico aumentariam, ajudando os agricultores, e o valor externo do dólar cairia, ajudando os exportadores.

A partir de 25 de Outubro de 1933, Roosevelt, bem como Henry Morgenthau, seu secretário do Tesouro, e Jesse Jones, director da Reconstruction Finance Corporation, reuniam-se todas as manhãs no quarto de Roosevelt para fixarem o preço do ouro. Certo dia, aumentaram-no em 0,21 dólares, uma vez que 21 parecia ser um número da sorte. A princípio, compravam apenas ouro recém-saído da casa da moeda nos Estados Unidos. Mais tarde, passaram a comprar ouro proveniente do estrangeiro.

A política de compra de ouro fez subir o preço oficial deste metai precioso, de 20,67 dólares por onça em Outubro de 1933 para 35 dólares por onça em Janeiro de 1934, ocasião em que esta experiência foi interrompida. Nessa altura, tinham sido injectadas várias centenas de milhões de dólares no sistema bancário.

No entanto, os resultados foram decepcionantes. A compra de ouro estrangeiro fez baixar o valor do dólar em relação ao ouro. Mas os preços internos continuaram a descer durante os três meses de febre de aquisição do metal precioso.

Os esforços mais ortodoxos da Reserva Federal em matéria de “quantitative easing” também produziram os mesmos resultados desencorajadores. “Seja pela falta de tomadores de empréstimos, pelas reticências em conceder crédito ou pelo desejo predominante de manter a liquidez – tratou-se, indubitavelmente, de um misto destes três aspectos -, os bancos acumularam reservas acima das suas obrigações. As reservas dos bancos membros da Fed ultrapassava em 256 milhões de dólares aquilo que era exigido em 1932; em 528 milhões de dólares em 1933, em 1,6 mil milhões em 1934 e em 2,6 mil milhões em 1936”, conforme resumiu John Kenneth Galbraith.

O que fracassou na política da Fed foi a chamada teoria da quantidade de dinheiro na qual se baseou. Esta teoria diz que os preços dependem da oferta de dinheiro em relação à quantidade de bens e serviços que são vendidos. Mas a moeda inclui depósitos bancários, que dependem da confiança dos empresários. Tal como diz o ditado, “não se pode empurrar uma corda” [esta expressão (“you can’t push on a string”) é um axioma da política monetária para explicar que podemos dar mais dólares às pessoas, mas não podemos obrigá-las a gastá-los].

“Algumas pessoas parecem deduzir (…) que se pode aumentar a produção e os rendimentos através do aumento da quantidade de dinheiro. Mas isso é como tentar engordar comprando um cinto mais largo. Actualmente, nos Estados Unidos, o cinto é suficientemente grande para a barriga... Não é a quantidade de dinheiro, mas sim o volume de gastos, que é o factor determinante”, escreveu na altura John Maynard Keynes.

Actualmente, os Estados Unidos, fundamentando-se na mesma teoria errónea, estão a fazê-lo de novo. E a China, sem que isso constitua motivo de surpresa, acusa os EUA de quererem depreciar deliberadamente o dólar. Mas o consequente aumento das exportações norte-americanas, a expensas dos produtores chineses, japoneses e europeus é precisamente o objectivo que se procura.

O euro vai ficar progressivamente sobreavaliado, tal como o bloco do ouro na década de 30. Uma vez que a Zona Euro está empenhada nas medidas de austeridade, o seu único recurso é o do proteccionismo. Entretanto, a política da China de deixar que o renminbi valorize, lentamente, face ao dólar, poderá muito bem fazer marcha atrás, levando ao proteccionismo por parte dos Estados Unidos.

A incapacidade da reunião do G-20 em Seul para realizar quaisquer progressos rumo a um acordo em matéria de taxas de câmbio, ou sobre as disposições a propósito das reservas futuras, deixa antever um regresso à década de 30. Esperemos que a sabedoria prevaleça antes da ascenção de um novo Hitler.

Robert Skidelsky, membro da Câmara dos Lordes britânica, é professor emérito de Economia Política na Universidade de Warwick, autor de uma biografia premiada do economista John Maynard Keynes e membro da administração da Escola de Estudos Políticos em Moscovo.

Direitos de autor: Project Syndicate, 2010.

www.project-syndicate.org

Para aceder ao “podcast” deste texto em inglês, deve utilizar o seguinte link:

http://media.blubrry.com/ps/media.libsyn.com/media/ps/skidelsky35.mp3

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