João Rodrigues
João Rodrigues 25 de março de 2009 às 12:03

Temos de ir à raiz dos problemas sociais

Confiamos muito pouco uns nos outros. O sector da segurança privada cresce sem parar, os condomínios privados brotam como cogumelos e o espaço público é crescentemente ameaçado por lógicas de privatização.
Confiamos muito pouco uns nos outros. O sector da segurança privada cresce sem parar, os condomínios privados brotam como cogumelos e o espaço público é crescentemente ameaçado por lógicas de privatização. Avaliamo-nos cada vez mais por aquilo que temos e parece que estamos trancados numa espiral consumista ambientalmente insustentável, geradora de sobreendividamento e de visões distorcidas sobre o que pode ser uma vida realmente boa. O dinheiro é a base do respeito.

Os resultados nas áreas da educação e da saúde deixam muito a desejar. Temos uma alimentação cada vez mais desequilibrada. A mobilidade social parece emperrada. Os horários de trabalho são cada vez mais exigentes e são cada vez mais os que acumulam empregos mal remunerados e precários. O stress e a ansiedade em relação ao nosso estatuto social parecem esgotar a disponibilidade para a participação cívica e para tantos outros esforços cooperativos que são a base de uma comunidade decente. A apatia política avança assim a par de um ensimesmamento depressivo gerador de infelicidade e de sofrimento para os quais só parecem estar disponíveis respostas individuais.

O leitor está farto de conhecer estes e outros problemas do nosso país. Temos a percepção de que há questões sociais, novas e velhas, que parecem irresolúveis e que nos trancam numa rede de relações que gostaríamos de poder evitar. Os Estados dirigem recursos para tentar dar resposta directa a algumas destas questões. E, no entanto, a sensação de impotência agudiza-se. É como se o corpo social recusasse todos os tratamentos localizados.

Ao mesmo tempo, demasiados governos nos países desenvolvidos têm adoptado a célebre atitude de Peter Mandelson, um dos principais responsáveis pela Terceira Via, que tão grande influência exerceu sobre a esquerda que se autodenomina moderna no nosso país. Mandelson declarou "estar intensamente relaxado com o facto de as pessoas se tornarem obscenamente ricas". Pouquíssimas pessoas, claro. Esta atitude é profundamente errada e está na origem dos nossos problemas.

Um extraordinário livro, acabado de sair, "The Spirit Level"* mostra-o claramente. Para um grupo de vinte e três países desenvolvidos analisados, quanto mais igualitárias são as sociedades menos intensos são os problemas sociais e mais elevada é a qualidade de vida, concebida de forma ampla. O rendimento per capita é irrelevante neste contexto.

Richard Wilkinson e Kate Pickett, dois dos mais reputados especialistas internacionais na área dos determinantes sociais da saúde, não só sistematizam na obra décadas de investigação empírica, que há muito mostrou que os países mais desiguais têm, globalmente e para os vários escalões sociais, piores resultados na área da saúde pública e níveis muito superiores de sofrimento social evitável, como alargam o leque das relações abordadas: da população prisional aos níveis de confiança, passando pelos resultados escolares.

Como bons cientistas sociais, os autores não confundem correlação com causalidade. A sua análise estatística mostra um padrão claro de associação entre cada um dos problemas abordados e as diferenças entre ricos e pobres, mostrando também que nenhuma outra variável exibe o mesmo comportamento. Este é um ponto de partida para uma detalhada exploração dos mecanismos causais que permitem, para além de qualquer dúvida razoável, dizer que as desigualdades de rendimentos são a principal causa dos problemas escrutinados.

De outra forma, como explicar que países tão diferentes como Portugal, os EUA ou o Reino Unido exibam uma performance tão medíocre em termos de indicadores sociais e que o Japão ou a Suécia, países infinitamente mais igualitários, sejam sociedades bem mais decentes?

Os autores dão uma grande importância à forma como as desigualdades de rendimento criam um filtro que dificulta as relações sociais entre os indivíduos, que aumenta a conflitualidade e o preconceito de classe e que impede a descoberta de soluções cooperativas, a descoberta de regras e de instituições comuns, que são a base material do florescimento humano.

Sabemos que o desempenho dos indivíduos é, em larga medida, o resultado das suas circunstâncias sociais. As sociedades menos desiguais mostram como estas se podem tornar mais humanas. Por isso, apelo ao leitor que esteja atento. Os movimentos sociais e os partidos políticos que pugnam por políticas de maior igualdade das condições materiais estão a contribuir, sobretudo em épocas de crise, para que o leitor possa viver mais e melhor. A evidência empírica não mente. A política que importa tem de se basear nela.



* Richard Wilkinson e Kate Pickett, "The Spirit Level - Why More Equal Societies Almost Always Do Better", Allen Lane, Londres, 2009.


Economista, doutorando na Universidade de Manchester
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