Robert Shiller
Robert Shiller 23 de fevereiro de 2017 às 20:00

A ilusão que está a levar à alta dos preços dos activos norte-americanos

Nos Estados Unidos, a combinação de Trump com uma sucessão de vários novos máximos nos preços dos activos – chamados de Trump ao quadrado – têm suportado a ilusão que tem impulsionado o optimismo actual do mercado.

Os mercados especulativos foram sempre vulneráveis à ilusão. Mas detectar a loucura nos mercados não dá nenhuma vantagem clara na altura de antecipar os desfechos porque as mudanças na força da ilusão são difíceis de prever.

 

Nos Estados Unidos, recentemente, duas ilusões têm sido importantes nos mercados financeiros. Uma é a ilusão cuidadosamente alimentada de que o presidente Donald Trump é um génio dos negócios que pode aplicar as suas competências nesse campo à tarefa de tornar a América grande novamente. A outra é uma ilusão natural: a proximidade do Dow Jones dos 20.000 pontos. O Dow Jones Industrial Average esteve acima dos 19.000 pontos desde Novembro, e inúmeras histórias focaram-se na sua proximidade à barreira dos 20.000 - que pode ter sido ultrapassada quando este comentário for publicado. O que quer que aconteça, o Dow Jones nos 20.000 pontos tem um impacto psicológico nos mercados.

 

Trump nunca foi claro nem consistente sobre o que vai ser como presidente. Os cortes nos impostos são um tema claro na sua agenda e os estímulos podem levar a uma subida dos preços dos activos. Impostos mais baixos para as empresas naturalmente podem levar a preços das acções mais altos enquanto os cortes nos impostos sobre os rendimentos pessoais levam a preços das habitações mais elevados (apesar de possivelmente poderem ser ofuscados por outras mudanças nos sistemas fiscais).

 

Mas não são apenas as propostas de alterações fiscais de Trump que, plausivelmente, afectam o mercado psicologicamente. Os Estados Unidos nunca tiveram um presidente como ele. Trump não é apenas um actor, como Ronald Reagan, ele é também um escritor motivacional e um orador, uma marca no sector imobiliário e um negociador duro. Se ele alguma vez revelar informações acerca das suas finanças, ou se a sua família for capaz de usar a sua influência como presidente para melhorar os seus balanços, ele pode mesmo provar ser um homem de negócios bem-sucedido.

 

Entre os antigos presidentes dos Estados Unidos, o que mais se aproxima de Trump talvez seja Calvin Coolidge, um cortador de impostos extremamente pró-empresas. "O negócio principal da população americana são os negócios", afirmou Coolidge (uma frase que ficou famosa), enquanto o seu secretário de Estado, Andrew Mellon – um dos homens mais ricos dos Estados Unidos – advogava cortes nos impostos para os ricos, que poderiam ter um "efeito gerador" de benefícios para os menos afortunados.

 
Durante a administração Coolidge, a economia norte-americana foi bem-sucedida mas o boom terminou mal em 1929, logo depois de Coolidge sair do cargo, com o crash no mercado bolsista e com o início da Grande Depressão. Durante a década de 1930, os anos de 1920 foram olhados com melancolia, mas também como um tempo de falsidade e engano.

 

Claro que a história nunca é o destino e Coolidge é apenas uma observação – dificilmente uma base sólida para previsões. Além disso, ao contrário de Trump, tanto Coolidge como Mellon eram equilibrados e moderados na sua forma de ser.

 

Mas a somar ao efeito Trump, temos toda a atenção dada aos 20.000 pontos do Dow Jones e aí temos a criação de uma ilusão poderosa. A 10 de Novembro de 2016, dois dias depois de Donald J. Trump ter sido eleito, o Dow Jones atingiu um novo máximo – e desde então estabeleceu mais 16 máximos diários, todos focados pelos media.

 

Isto soa a notícias importantes para Trump. De facto, o Dow Jones tinha já atingido nove recordes antes das eleições, quando as sondagens indicavam uma vitória de Hillary Clinton. Em termos nominais, o Dow Jones está 70% acima do seu pico atingido em Janeiro de 2000. A 29 de Novembro de 2016, foi anunciado que o índice nacional dos preços das casas S&P/CoreLogic/Case-Shiller (que eu co-fundei com o meu estimado antigo colega Karl E. Case, que faleceu em Julho passado) alcançou um máximo em Setembro. O recorde anterior tinha sido há mais de 10 anos, em Julho de 2006.

 

Mas estes números são ilusórios. Os Estados Unidos têm uma política nacional em relação à inflação. A Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed) estabeleceu como objectivo uma inflação de 2% em termos de deflactor dos gastos com o consumo pessoal. Isto significa que todos os preços deviam tender a subir cerca de 2% por ano, ou 22% por década.

 

O Dow Jones está apenas 19% acima em termos reais (ajustados à inflação) face a 2000. Uma subida de 19% em 17 anos é abaixo do esperado e o índice nacional dos preços das casas que Case e eu criámos contínua 16% abaixo do seu pico de 2006, em termos reais. Mas dificilmente alguém se foca nestes números corridos pela inflação.

 

A Fed, tal como outros bancos centrais mundiais, está a desvalorizar continuamente a moeda, de forma a criar inflação. A pesquisa Google Ngrams, relativa aos livros, mostra que o uso do termo "meta da inflação" começou a crescer exponencialmente no início da década de 1990, quando o objectivo era tipicamente bem abaixo da inflação actual. A ideia que queremos moderar a inflação positiva – "estabilidade dos preços", não uma inflação zero – parece que começou a ganhar forma nos círculos políticos durante a recessão de 1990-1991. Lawrence Summers argumentou que o público tem uma resistência "irracional" ao declínio nominal dos salários que alguns têm de sofrer num regime de inflação zero.

 

Muitas pessoas aparentemente não entendem que a inflação é uma alteração nas unidades de medida. Infelizmente, embora o objectivo de uma inflação de 2% seja uma política simpática, as pessoas tendem a retirar disso muita inspiração. Irving Fisher chamou a esta fixação do crescimento nominal dos preços uma "ilusão do dinheiro" num epónimo livro de 1928.

 

Isto não significa que o mercado alcance recordes especulativos todos os dias. Os movimentos dos preços das acções tendem a aproximar-se do que os economistas chamam de "caminhadas aleatórias", com os preços a reflectir pequenos choques diários que são possivelmente tanto positivos como negativos. E as caminhadas aleatórias tendem a ocorrer durante longos períodos quando estão bem abaixo do pico anterior; a hipótese de estabelecer um novo recorde em breve é insignificante, dado o quanto os preços teriam de subir. Mas quando atingirem um novo máximo histórico, os preços têm uma maior probabilidade de atingirem novos máximos – provavelmente não nos dias seguintes, mas com um pequeno intervalo.

 

Nos Estados Unidos, a combinação de Trump com uma sucessão de vários novos máximos nos preços dos activos – chamados de Trump ao quadrado – têm suportado a ilusão que tem impulsionado o optimismo actual do mercado. Para aqueles que não estão demasiado stressados por terem tomado posições extremas nos mercados, vai ser interessante (se não rentável) observar como as ilusões se transformam numa nova perspectiva – que implica níveis muito diferentes para os mercados especulativos.

 

Robert J. Shiller, prémio Nobel da Economia em 2013 e professor de Economia na Universidade de Yale, é co-autor, com George Akerlof, de Phishing for Phools: The Economics of Manipulation and Deception.

(O project, no original, foi publicado no dia da tomada de posse de Donald Trump)

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
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Tradução: Ana Laranjeiro

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