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Ellen R. Stofan 01 de Janeiro de 2016 às 15:00

Viagem da NASA para Marte

Não estamos a perseguir uma jornada humana para Marte apenas porque podemos. Estamos a fazê-lo porque aquilo que aprendermos sobre o planeta vai dizer-nos mais acerca da vida na Terra.

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No "The Martian" [Perdido de Marte], um dos grandes filmes de 2015, a NASA salva heroicamente um astronauta preso através da pequena ajuda de parceiros internacionais e da grande criatividade humana. Realizado por Ridley Scott, o filme é visualmente bonito e assegura um entretenimento de roer as unhas. Mas também salienta aquilo que os humanos conseguem alcançar quando metem uma coisa na cabeça e – como a obra-prima de Stanley Kubrick, de 1968, "2001: A Space Odyssey" – oferece uma olhadela sobre o que poderá ser a futura exploração espacial.

A NASA providenciou alguma ajuda técnica durante a produção do filme, e muitas das cenas mostram tecnologias em que estamos a trabalhar actualmente – desde avançados fatos espaciais a métodos para fazer culturas alimentares no espaço. Estas tecnologias poderão um dia ser utilizadas na vida real para explorar Marte.

 

A NASA estabeleceu o ambicioso objectivo de enviar humanos para Marte até meados da década de 1930. Num relatório recentemente divulgado, "Viagem da NASA para Marte: Próximos Passos Inovadores da Exploração Espacial", fazemos um esboço daquilo que a humanidade precisa fazer para chegar lá. Os passos incluem a pesquisa na Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla inglesa) e, posteriormente, mover os humanos para lá da órbita terrestre baixa para aquilo que designamos como "the proving ground" – a zona espacial próxima da lua. Isto vai-nos permitir puxar pelos limites da nossa capacidade num lugar de onde os astronautas poderão regressar a casa em segurança e num período de poucos dias.

 

Há uma coisa em que "The Martian" se enganou. Ao contrário do filme – já para não falar da exploração lunar da NASA na vida real – a exploração humana de Marte não dependerá de um esforço dominado pela NASA. Pelo contrário, pessoas e recursos de todo o mundo irão contribuir na preparação do envio de humanos para Marte, e a jornada, em si própria, será prosseguida através de uma parceria com as agências espaciais de outros países e com o apoio do sector privado.

Actualmente, um pouco por todo o mundo as agências estão a trabalhar conjuntamente para expandir o nosso conhecimento sobre o espaço e o sistema solar. Dezenas de milhares de pessoas de 15 países estiveram envolvidas no desenvolvimento e operacionalização da ISS. Além disso, para desenvolver a tecnologia necessária para explorar o nosso sistema solar, estamos a levar a cabo uma pesquisa fundamental sobre como manter humanos saudáveis no espaço durante longos períodos de tempo, mitigando, em simultâneo, riscos para a saúde tais como a perda de densidade óssea ou a atrofia muscular.

 

Em colaboração com a comunidade internacional, a NASA continua a explorar Marte roboticamente através de numerosos veículos espaciais. Cinco países contribuíram com instrumentos a bordo do Laboratório Científico de Curiosidade sobre Marte, da NASA, incluindo uma estação de monitorização climática construída pelo Centro de Astrobiologia, em Espanha. Estes esforços vão reduzir os riscos de levar humanos até Marte, ao garantirem uma melhor compreensão do ambiente do planeta e dos recursos que este pode dar aos futuros exploradores. A Agência Espacial Europeia está a fornecer o módulo do serviço para a nave espacial Orion da NASA – o veículo que irá transportar, pela primeira vez desde o programa Apollo, astronautas para lá da lua.

 

As empresas privadas também estão a fazer a sua parte. SpaceX e a Orbital ATK já transportam suprimentos para a ISS enquanto parte do programa comercial de transporte da NASA, enquanto a Boeing e a SpaceX planeiam avançar com o lançamento de astronautas em 2018. Estamos também a testar novas tecnologias com empresas privadas na ISS, tais como impressoras tridimensionais que poderiam tornar a exploração espacial mais sustentável.

 

Não estamos a perseguir uma jornada humana para Marte apenas porque podemos. Estamos a fazê-lo porque aquilo que aprendermos sobre o planeta vai dizer-nos mais acerca da vida na Terra.

 

Sob uma perspectiva científica, acreditamos que Marte é o lugar mais provável para serem encontradas evidências de vida para lá da Terra. Água, que é crítica para haver vida, foi estável na superfície de Marte durante cerca de mil milhões de anos. De acordo com aquilo que sabemos acerca da evolução na Terra, é provável que também em Marte tenha surgido vida.

Contudo, porque as formas de vida marcianas – se é que há alguma – talvez não tenham evoluído além do nível microbiano, provavelmente nós teremos de colocar astrobiólogos e geólogos na superfície de Marte de forma a encontrar evidências das mesmas. As provas recentes de água em estado líquido na superfície de Marte também fazem com que os cientistas se questionem sobre se a vida poderá ter persistido, deslocando-se para debaixo de terra depois de as condições à superfície se terem tornado crescentemente inóspitas.

 

Também há razões para visitar Marte que transcendem a ciência pura. Enviar humanos para Marte é um desafio que vai estimular a inovação e o desenvolvimento de novas tecnologias e capacidades. Foi estimado que cada dólar gasto pela NASA assegura cerca de quatro dólares para a economia americana. Tal como disse o Presidente John F. Kennedy, nós não fazemos coisas como colocar um homem na lua "porque são fáceis, mas porque são difíceis, porque esse objectivo vai servir para organizar e medir o melhor das nossas energias e capacidades".

 

Estes esforços garantem reais benefícios para a vida na Terra. Na verdade, muitas das recentes tecnologias desenvolvidas para o espaço já têm aplicação prática na Terra. O sistema de purificação de água utilizado actualmente na ISS ajuda a assegurar água potável em regiões remotas. O trabalho no novo Sistema de Lançamento Espacial da NASA e na cápsula Orion levou a formas mais rápidas de recarregar baterias, e ao desenvolvimento de técnicas avançadas de produção industrial e ainda a estruturas de aviões mais leves.

 

Tal como o férreo astronauta Mark Watney explorou Marte em "The Martian", a NASA está empenhada em continuar a liderar um esforço internacional para alcançar novos patamares e para aprender os segredos do Planeta Vermelho. Ao fazê-lo, vamos tornar a ficção científica em ciência de facto. 

 

Ellen R. Stofan é Cientista Chefe na NASA.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2015.
www.project-syndicate.org
 

Tradução: David Santiago

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