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Luigi Zingales 28 de Março de 2013 às 07:54

O opiáceo dos mercados de Mario Draghi

Do ponto de vista da estabilidade europeia, as eleições italianas não podiam ter um resultado pior. O parlamento italiano está dividido entre três forças políticas mutuamente incompatíveis, não sendo nenhuma forte o suficiente para governar sozinha.

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Pior, uma destas forças, que obteve 25% dos votos, é um partido populista anti-euro, enquanto o outro, um grupo euro-céptico liderado pelo antigo primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, obteve cerca de 30% dos votos, dando aos partidos anti-euro uma clara maioria.

 

Apesar destes resultados alarmantes, o diferencial entre os juros da dívida pública italiana face às “bunds” alemãs aumentou apenas em 40 pontos base desde as eleições. Em Julho de 2012, quando um governo pró-europeu com propensão para a austeridade conduzia o país, com o respeitado economista Mario Monti no comando, este “spread” atingiu os 536 pontos base. Hoje, sem governo e com poucas possibilidades de que um governo decente seja formado em breve, o “spread” está nos 314 pontos base. Então, os mercados estão optimistas em relação à Itália ou perderam a capacidade para avaliar o risco?  

 

Uma sondagem recente a investidores internacionais realizada pelo Morgan Stanley sugere que não estão optimistas. 46% dos inquiridos disse que o cenário mais provável para Itália é um governo interino e novas eleições. E vêem este desfecho como o pior cenário, já que implica um atraso na tomada de novas medidas económicas, uma incerteza política profunda e o risco de um resultado eleitoral ainda menos favorável.

 

A sondagem também indicava claramente por que o “spread” das obrigações do Tesouro italianas não é muito maior: a percepção de suporte do Banco Central Europeu. Embora os investidores acreditem que é pouco provável que este suporte seja usado, a sua mera existência dissuade-os de apostar contra Itália. Por outras palavras, o esquema das “Transacções Monetárias Definitivas” (OMT na sigla em inglês) anunciado pelo presidente do BCE, Mario Draghi, no passado mês de Julho, serviu de “bazuca” – uma arma tão poderosa que não precisa de ser usada.

 

O antigo Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Hank Paulson, procurou uma bazuca durante a crise financeira de 2008. Falhou, porque acreditava que mesmo uma arma falsa poderia funcionar se parecesse assustadora o suficiente. Não caindo no truque, os especuladores  repetidamente o chamaram de “bluff”. Draghi, com o famoso aviso de que faria “o que for preciso” para assegurar a sobrevivência do euro, foi bem sucedido onde Paulson não foi. Afinal, controla a “torneira” monetária.

 

Mesmo a bazuca de Draghi é parcialmente um “bluff”. Draghi desenhou-a para aliviar o BCE da enorme responsabilidade política de decidir quando salvar um país do incumprimento. Por esta razão, desencadear o mecanismo das OMT requer o consenso unânime dos governos da Zona Euro. Mas, se a bazuca for necessária, qual a probabilidade de ser usada antes das eleições alemãs, em Setembro? A sondagem do Morgan Stanley não colocou esta questão, provavelmente porque toda a gente sabe a resposta: é de todo improvável.

 

Assim, os mercados continuam calmos porque esperam que a bazuca não seja necessária. Nesse caso, o facto de não pode ser desencadeada facilmente não representa um problema significativo. A sua presença é suficiente para apoiar uma profecia benigna que tende a cumprir-se. Por outras palavras, a bazuca de Draghi tem anestesiado os mercados, prejudicando a sua capacidade para avaliar o risco.

 

Mas, como todas as anestesias, a de Draghi não pode e não vai durar para sempre. Ou o problema é resolvido antes do paciente acordar, ou a dor será devastadora.

 

Os investidores inquiridos pelo Morgan Stanley colocaram a probabilidade de uma crise renovada em Itália abaixo dos 25%. Eu acredito que é superior a 50%. Mesmo depois das eleições alemãs, não estou certo de que o governo esteja disposto a apoiar um programa de resgate italiano sem pedir maiores garantias face aos objectivos – e mesmo a composição – da coligação governante em Itália.

 

De facto, a chanceller alemã, Angela Merkel, vai enfrentar um sério dilema após a sua provável reeleição. Sem uma rigorosa condicionalidade, correria o risco de mudar o consenso interno a favor da disposição euro-céptica que está a emergir na Alemanha. Mas, ao insistir nesta condicionalidade, Merkel iria desencadear uma enorme crise política na Europa. Se o Governo alemão decide quem governa Itália, por que se devem preocupar os italianos em votar? A Zona Euro vai parecer um protectorado alemão, em vez de uma união voluntária de países soberanos. O recuo político seria enorme.

 

A única esperança é de que a Zona Euro faça um forte progresso em direcção ao estabelecimento de mecanismos de redistribuição orçamental, como o seguro de desemprego europeu, antes que passe o efeito da anestesia de Draghi. De outra forma, a Europa enfrentará, de facto, um acordar muito desagradável.

 

Luigi Zingales é professor de empreendedorismo e finanças na Universidade de Chicago e autor do livro "A Capitalism for the People: Recapturing the Lost Genius of American Prosperity". 

 

Copyright: Project Syndicate, 2013.
www.project-syndicate.org

Tradução: Raquel Godinho

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