A sustentabilidade já não é uma opção
O shakespeariano “ser ou não ser” já não é a questão. Ou as políticas públicas e de gestão empresarial se norteiam por critérios de sustentabilidade ou a prazo estão condenadas ao fracasso.
Costuma recusar a compra de um produto porque a empresa que o vende não tem preocupações ambientais, paga mais aos homens do que às mulheres, tem uma disparidade brutal entre o salário dos gestores de topo e o grosso dos trabalhadores ou foge, ostensivamente, ao pagamento de impostos? Se sim, então faz parte de uma minoria.
Isso mostra a longa estrada que a consciência coletiva sobre a sustentabilidade tem a percorrer. Mas já há caminho feito e vamos lá chegar. Tanta coisa que como sociedade já admitimos e deixámos de tolerar. E a verdade é que damos cada vez mais importância aos temas da sustentabilidade enquanto consumidores e as empresas sabem-no. Num mundo em que uma reputação que levou anos a construir pode ser arrastada pelas amargas ruas das redes sociais, não ser sustentável é um risco. Mas sê-lo por medo é a razão errada. A certa é porque isso torna as empresas mais sólidas e até lhes permite ter financiamento mais barato.
O shakespeariano “ser ou não ser” já não é a questão. Ou as políticas públicas e de gestão empresarial se norteiam por critérios de sustentabilidade ou a prazo estão condenadas ao fracasso.
Muito se tem falado sobre a oportunidade que a atual crise oferece para se adotarem modelos de desenvolvimento mais sustentáveis, quase como se fosse possível recomeçar do zero. Não é. Mas a pandemia da máscara tirou-nos a máscara da invulnerabilidade e aguçou o nosso instinto de sobrevivência. A sustentabilidade é a resposta.
Por isso, sim, esta é uma oportunidade para as empresas ajustarem os seus modelos de negócio, num desafio que iguala em escala a transição digital. E também para mudarem a atitude em relação aos seus vários “stakeholders”, de acionistas a trabalhadores e comunidades, encontrando um novo equilíbrio de interesses. Chamem-lhe “the new capitalism” ou deem-lhe outro nome aspiracional qualquer. O que vale é a concretização da mudança.
O mesmo se aplica aos governos e às políticas públicas. E ambos terão de remar para o mesmo lado. Colin Mayer, coordenador do “Future of the Corporation” da British Academy, que é um dos entrevistados da edição especial, resume-o numa frase: “As empresas têm de desempenhar uma função mais social e os Estados têm de apoiar mais os negócios.” É tão simples, porque tem sido tão complicado?
Esta é também uma oportunidade para a União Europeia. O bloco pode ter perdido a supremacia económica e tecnológica, mas continua a ter a dianteira nos valores. A aposta na sustentabilidade pagará os seus dividendos, mas é preciso exigir reciprocidade aos outros.
No Negócios assumimos o compromisso de dar maior visibilidade a esta causa. Esta edição de aniversário é só o primeiro passo. Vamos ter uma secção semanal, um site dedicado, provocar o debate e premiar os melhores projetos de sustentabilidade em Portugal.
Temos uma década pela frente para reescrever o futuro e começamos com um enorme atraso. Não é só salvar o planeta, é salvar o nosso modo de vida.
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