Perca dinheiro, pergunte-me como
Factos: é em Portugal que as taxas de juro dos depósitos a prazo são, na zona euro, os mais baixos (ou dos mais baixos, dependendo da maturidade); a taxa real dos depósitos portugueses é negativa, inferior à inflação; e neste momento os b
Comentários: as taxas de juro permanecem baixas; os níveis de endividamento dos portugueses (famílias, empresas e "Estados", incluindo autarquias) é que estão elevados. Quando o BCE sobe os juros, martiriza o devedor exercendo um controlo inflacionista apertado, que leva alguns a chamar o senhor Trichet de fundamentalista e outros, como a nova coqueluche Segolène Royal, a alvitrar o fim da definição independente das políticas monetárias, que voltariam a ser incumbência dos políticos (um retrocesso, como classificou Sarsfield Cabral). Há, ainda, o custo implícito para um país como Portugal de pertencer ao grupo robusto do euro: pagamos taxas europeias com inflação portuguesa. Para as famílias, esse sobrecusto trava ímpetos consumistas; para as empresas, o investimento torna-se mais selectivo; para a banca, o fosso entre as taxas que cobram nos empréstimos (que sobem mesmo antes das revisões do BCE) e as que pagam nos depósitos (que se perpetuam no seu desdoiro) é mais um factor no somatório de comissões, fiscalidades, arredondamentos e internacionalizações que explicam lucros espantosos. Não é errado: taxa de juro é o preço que o banco paga pelo dinheiro do depositante; há um século, na economia de produção, o preço definia-se em função do custo do produto/serviço; hoje, um bom director de marketing monta-se na curva da procura e cobra o máximo (ou paga o mínimo) que o cliente está disposto a pagar. É isto que os bancos fazem, fazem-no bem e fazem bem.
Excepções: todos os depósitos a prazo são negativos? Não. Por um lado, há taxas promocionais de bancos com necessidade de crescer. A Internet tem liderado na Europa os melhores créditos e depósitos. Por outro lado, há taxas para pouco dinheiro e taxas para dinheiro que se veja. Para quaisquer 100 mil euros, os bancos já oferecem depósitos a prazo indexados à Euribor (mais um "spread" crescente conforme sobe o valor). No final de 2006, os maiores bancos digladiaram-se pelos melhores clientes para fechar os balanços em beleza, oferecendo taxas próximas dos 5% mesmo para valores pouco milionários.
Conclusões: as famílias portuguesas ainda são superavitárias, têm mais activos que passivos. O problema é que as famílias que têm os activos não são as que têm os passivos. E a não ser que se tenha dinheiro que se veja, não há como ganhar em depósitos a prazo, cujo único atributo é a disponibilidade quase imediata.
Um depósito vale pouco. Menos que o seu dinheiro. Mas é inútil atacar os bancos pela sovinice. Só mais informação evita a avareza. Quer ganhar dinheiro? Pergunte-lhes como.
Mais lidas