Com taxas assim não há bolha que rebente

A subida dos preços das casas em Portugal é um dos temas debatidos do momento. Todos conhecem alguém que teve de pagar um “balúrdio” pela casa nova ou ganhou uma “fortuna” na venda da sua. Ou então que esteja a pagar/receber uma renda exorbitante por um apartamento que há alguns anos ninguém pegava.
Jornal de Negócios
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Nuno Carregueiro 02 de agosto de 2018 às 23:00

Também não há quem não tenha opinião sobre o assunto: a culpa é dos especuladores, dos turistas, dos estrangeiros que estão a comprar tudo, dos vistos gold, do Governo, das imobiliárias, etc… Os dados revelados pelo Instituto Nacional de Estatística esta semana ajudam a aquecer o debate. Não podem ser considerados normais aumentos de 20% nos preços médios de venda de habitações nas duas principais cidades do país. Muito menos que, em algumas freguesias da capital, as casas estejam hoje a ser vendidas por valores que duplicam os praticados há dois anos.

As opiniões mais relevantes nesta área são sobretudo das entidades independentes e algumas delas, como o Banco de Portugal, FMI e CMVM, têm aumentado o tom dos alertas sobre a rápida subida dos preços do imobiliário em Portugal. Mas o som das campainhas ainda não tem o volume de uma bolha. São muitas as razões que ajudam a explicar esta forte subida dos preços das casas e várias têm sido amplamente citadas e analisadas: o "boom" do turismo em Portugal, a explosão do alojamento local, a recuperação da economia portuguesa, a escassez da oferta, a ausência de construção nova, etc…

Mas o actual nível de juros baixos é talvez a justificação mais estrutural para esta subida nos preços das casas. Também esta semana o Banco de Portugal divulgou estatísticas que ilustram bem a falta de alternativas para a aplicação de poupanças. Com quatro em cada cinco depósitos bancários em Portugal a pagar uma taxa de juro abaixo de 0,5%, não admira que o imobiliário seja uma alternativa de investimento cada vez mais recorrente.

Não é por acaso que a forte alta nos preços das casas é um fenómeno que está muito longe de ser um exclusivo de Portugal. Passa-se um pouco por todo o mundo e em diversas geografias já começam a surgir os primeiros sinais de inversão da tendência, o que levou mesmo a Bloomberg a decretar o "fim do ‘boom’ global do mercado imobiliário". E não é por acaso que as descidas de preços estejam a acontecer precisamente em regiões onde o ciclo de subida de juros já arrancou há vários meses.

Na Zona Euro ainda falta pelo menos um ano para o preço do dinheiro começar a subir e mais tempo ainda para o regresso à normalidade nos juros. Até lá os preços das casas até podem continuar a subir e não será por isso que o volume das campainhas irá aumentar muito. Só é preciso um travão no aumento dos preços para que a bolha não ganhe muito volume a ponto de ficar prestes a rebentar.
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