A União Europeia (UE) atingiu no ano passado um marco histórico na transição energética, porque, pela primeira vez, a eletricidade produzida a partir do vento e do sol superou a gerada por combustíveis fósseis. De acordo com o European Electricity Review 2026, elaborado pela Ember, estas duas fontes renováveis representaram 30,1% da eletricidade produzida na UE, ultrapassando os fósseis, que ficaram nos 29%.
O relatório considera este momento como um ponto de viragem estrutural no sistema elétrico europeu e aponta que, em 14 dos 27 Estados-membros, o conjunto do vento e do sol já produz mais eletricidade do que todas as fontes fósseis combinadas.
O principal motor deste avanço foi a energia solar, que voltou a bater recordes e atingiu 369 terawatts-hora (TWh), mais 20% do que no ano anterior e mais do dobro do valor registado em 2020. “A energia solar produziu, em 2025, mais eletricidade na UE do que em qualquer outro ano”, destacam os autores, acrescentando que o aumento anual equivale à produção de cerca de três centrais nucleares francesas.
No conjunto, as fontes renováveis garantiram cerca de 48% da eletricidade consumida na UE, um peso semelhante ao de 2024 mesmo apesar de condições meteorológicas invulgares. Segundo a Ember, “as mesmas condições meteorológicas que provocaram uma quebra na produção eólica e hídrica acabaram por impulsionar a produção solar”, permitindo estabilizar o contributo das renováveis ao longo do ano.
Apesar deste progresso, o relatório alerta para fragilidades persistentes, sobretudo na dependência do gás natural. A produção elétrica a partir de gás aumentou 8% em 2025, em grande parte devido à quebra da energia hídrica, elevando a fatura europeia de importações de gás para 32 mil milhões de euros, mais 16% do que em 2024. O documento nota que “a produção a gás aumentou, mas continua abaixo dos níveis registados antes da crise energética”.
O carvão continuou a perder relevância no mix energético europeu, caindo para apenas 9,2% da produção elétrica e atingindo um novo mínimo histórico. “A eletricidade produzida a partir do carvão desceu para um novo mínimo histórico em 2025”, refere o relatório, que aponta que em 19 países da UE o carvão já representa menos de 5% da eletricidade ou foi totalmente eliminado.
O estudo identifica as baterias e o armazenamento de eletricidade como elementos-chave para a próxima fase da transição energética. Com um pipeline recorde de projetos, o armazenamento poderá reduzir a dependência do gás nas horas de maior consumo e ajudar a conter a volatilidade dos preços, lê-se. Para Beatrice Petrovich, analista da Ember, “o próximo grande desafio será reduzir de forma significativa a dependência da UE do gás importado e caro”, o que exige investimento em baterias, redes elétricas e flexibilidade da procura.