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Restaurar a natureza é uma questão de segurança económica para a Europa

Cientistas defendem que aplicar integralmente a legislação europeia para o restauro ambiental é uma forma eficaz de reduzir riscos climáticos e reforçar a resiliência económica.

15:10
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A restauração da natureza na Europa deve ser encarada como um investimento estratégico e não apenas como uma obrigação legal, defendem cientistas europeus. Num comentário científico do European Academies Science Advisory Council (EASAC), divulgado esta quinta-feira, os autores sustentam que a implementação integral do Regulamento Europeu de Restauro da Natureza é essencial para a segurança, a prosperidade e a estabilidade ecológica do continente.

De acordo com o documento, o custo estimado da recuperação dos ecossistemas degradados na Europa ronda os 150 mil milhões de euros, um valor largamente compensado por benefícios económicos muito superiores. O comentário sublinha que estes benefícios resultam de perdas evitadas associadas a catástrofes naturais, melhorias na saúde pública, maior resiliência climática e reforço da segurança alimentar e hídrica.

“A restauração da natureza não é um luxo ambiental. É uma forma básica de gestão do risco”, afirma Thomas Elmqvist, diretor de Ambiente do EASAC e autor principal do comentário. Num contexto em que os impactos das alterações climáticas se intensificam, os autores apontam que os custos da inação continuam a crescer, com reflexo em danos materiais, interrupções económicas e “pressão acrescida sobre os orçamentos públicos”.

O elevado grau de degradação dos sistemas naturais europeus é outro ponto de alerta, consideram, já que apenas 1,4% das florestas permanecem intocadas e só 3,3% do território apresenta níveis mínimos de intervenção humana. Segundo o EASAC, “a degradação dos ecossistemas está diretamente ligada ao aumento dos danos causados por cheias, à perda de fertilidade dos solos, ao enfraquecimento dos sumidouros de carbono florestais e ao agravamento do risco de incêndios”.

O documento critica igualmente os modelos económicos dominantes, observando que “os sistemas económicos continuam a desvalorizar o papel da natureza e da biodiversidade no desenvolvimento económico”. Para Thomas Elmqvist, “ignorar o papel económico da natureza é um erro económico e estratégico grave”, uma vez que “quando os ecossistemas falham, os custos são transferidos para os cidadãos, as seguradoras e os governos”.

Os autores identificam três áreas prioritárias de intervenção, incluindo agricultura, florestas e zonas húmidas. Nos sistemas agrícolas, defende-se a transição para práticas regenerativas que restaurem os solos, a biodiversidade e a retenção de água, devendo as políticas públicas recompensar resultados como o carbono armazenado no solo e os ganhos na regulação hídrica. 

Nas florestas, o comunicado alerta para o enfraquecimento do seu papel climático e recomenda modelos de gestão mais próximos da natureza, salientando que “os incentivos à bioenergia devem privilegiar resíduos genuínos e o uso em cascata da biomassa”. Já nas turfeiras, zonas húmidas ricas em turfa, o documento destaca que a voltar a humidificar pode reduzir emissões, riscos de incêndio e perdas de biodiversidade.

“Os ativos naturais da Europa - solos, florestas, zonas húmidas, rios e ecossistemas marinhos - devem ser tratados, medidos e financiados como prioridades estratégicas”, defende o EASAC.

Para os autores, enfraquecer ou atrasar a aplicação do regulamento europeu vai aumentar a exposição do continente a riscos climáticos e económicos. “Os recuos nas políticas ambientais não eliminam custos; limitam-se a adiá-los no tempo”, afirma Fiona Regan, copresidente do Comité de Ambiente do EASAC, que defende que os Estados-membros devem concentrar-se em cumprir os objetivos da legislação, e não em diluí-la.

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