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Construção industrializada como resposta à crise da habitação

Da redução de desperdícios à aceleração das obras, empresas do setor defendem que a industrialização pode transformar a forma de construir em Portugal e ajudar a endereçar o desafio da falta de habitação.

16:00
Debate sobre negócios e sustentabilidade aborda crise habitacional em Portugal
Debate sobre negócios e sustentabilidade aborda crise habitacional em Portugal Fernando Costa
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Para Tiago Carrilho, Bárbara Fachada, Rui Oliveira, Daniel Granjo e Nuno Fideles, a construção industrializada pode acelerar a resposta à crise habitacional, reduzindo prazos, desperdício e custos, ao mesmo tempo que melhora a previsibilidade das obras e a sustentabilidade do setor.

A necessidade de construir mais habitação, mais depressa e com maior sustentabilidade está a acelerar a aposta na construção industrializada em Portugal. Essa foi a principal conclusão do workshop “Mais habitação, mais depressa: A construção industrial”, integrado na Grande Conferência Negócios Sustentabilidade 20|30 e moderado por Tiago Carrilho, head of Knowledge and Training do BCSD Portugal. Este workshop reuniu empresas e especialistas do setor para discutir soluções capazes de responder à atual crise habitacional.

Bárbara Fachada, arquiteta do dst group, reconhece que o setor enfrenta hoje “processos lentos, escassez de mão de obra especializada, aumentos de custos, baixa produtividade e uma enorme pressão ambiental”. Apesar disso, “continuamos a construir sempre com métodos semelhantes aos de várias décadas atrás”, lamentou.

Necessitamos mesmo não de uma evolução, mas de uma re-evolução. Bárbara Fachada, Arquiteta do dst group

A responsável apresentou o projeto Z-House, desenvolvido pelo grupo, que aposta na industrialização da construção através de componentes produzidos em fábrica e montados posteriormente em obra. “Necessitamos mesmo não de uma evolução, mas de uma re-evolução”, afiançou.

Segundo a especialista, cerca de 90% do processo construtivo é transferido para ambiente industrial, o que permite reduzir desperdícios, acelerar a execução e melhorar as condições de trabalho. Como exemplo, destacou uma residência de estudantes em Felgueiras, concebida e construída em apenas sete meses.

O tempo é a coisa que nos falta e que não podemos esticar. Rui Oliveira, Diretor da Saint-Gobain Solutions Portugal

A aposta na industrialização está também a transformar a lógica de produção de materiais. Rui Oliveira, diretor da Saint-Gobain Solutions Portugal, apresentou um sistema mecanizado de aplicação de betonilhas que, segundo explicou, permite executar a mesma superfície “quatro vezes mais rápido” por comparação com os métodos tradicionais. Além da redução do tempo de obra, Rui Oliveira sublinhou ganhos ambientais e operacionais. “Estamos a falar da eliminação de cerca de um milhão de sacos por ano”, referiu, a que se junta ainda a diminuição de desperdícios de materiais, a redução da necessidade de mão de obra especializada e a menor ocupação de espaço em estaleiro. “O tempo é a coisa que nos falta e que não podemos esticar”, apontou, pelo que a industrialização será inevitável para aumentar a eficiência do setor no país.

A industrialização implica uma disciplina muito maior a montante, no projeto e no planeamento. Daniel Granjo, Diretor-geral da KREAR

Também Daniel Granjo, diretor-geral da KREAR, considera que a industrialização deixou de ser apenas uma tendência para se tornar, cada vez mais, “um fator de competitividade”. A empresa, focada em soluções industrializadas para habitação, está a desenvolver projetos em áreas tão distintas como habitação acessível, turismo, hospitais ou edifícios de investigação.

O responsável destacou os ganhos de eficiência conseguidos nos projetos já concluídos, com um empreendimento de rendas acessíveis em Vila Nova de Gaia, composto por três edifícios e 90 apartamentos, a servir de exemplo. A montagem do primeiro edifício demorou 47 dias, a do segundo 40 e a do terceiro apenas 33 dias.

Temos aqui uma grande resposta para a necessidade que temos de rapidamente construir habitação. Nuno Fideles, Head of Sustainability da Savills

Ainda assim, alerta que “a industrialização implica uma disciplina muito maior a montante, no projeto e no planeamento”, o que faz da simultaneidade entre a produção em fábrica e a preparação da obra um dos fatores decisivos para acelerar os prazos.

Construir como se fosse um Lego

Os oradores concordam que a equação é positiva e que, além da redução de prazos e do aumento da competitividade, a construção industrializada é uma resposta direta às crescentes exigências ambientais, sociais e de governança associadas à sustentabilidade. “Temos aqui uma grande resposta para a necessidade que temos de rapidamente construir habitação”, reiterou Nuno Fideles, head of Sustainability da Savills. Na vertente ambiental, destacou a redução do carbono incorporado, do desperdício e dos consumos energéticos em obra. Já do ponto de vista da economia circular, comparou este modelo a “montar um Lego”, já que se torna possível desmontar edifícios no fim do seu ciclo de vida e reutilizar componentes. Nuno Fideles salientou ainda os impactos sociais da industrialização, sobretudo na melhoria das condições de trabalho.

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