O colapso da ajuda externa ao desenvolvimento não é apenas uma crise e pode mesmo ser uma oportunidade. Foi essa a mensagem central de um painel que reuniu, na Grande Conferência do Negócios Sustentabilidade, quatro vozes com visões distintas, mas convergentes sobre o futuro económico de África. O encontro juntou Pierandrea Renna, da Sun King, Nivi Sharma, da FIKA, Rahul Chaudhary, da Spiro, Ed Mountfield, vice-presidente e CFO da MIGA, organismo do Grupo Banco Mundial. O debate foi moderado por Jeff Wagner, diretor de Projetos Especiais do Financial Times Live. Os African Sustainable Future Awards, são uma iniciativa do Financial Times, em parceria com a MIGA, que distinguem iniciativas comercialmente viáveis que apresentam soluções transformadoras, resilientes e escaláveis, respondendo não apenas às necessidades atuais, mas também ao bem-estar das gerações futuras, num momento em que é mais importante do que nunca construir modelos de crescimento autossustentáveis.
Solar, motos e pontes
A Sun King distribui hoje 350.000 unidades solares por mês em 11 países africanos. O reconhecimento do Financial Times acelerou o acesso a capital e, em 2025, a empresa fechou uma securitização de 156 milhões de dólares, com maior participação de bancos comerciais. “Para cada dólar que financiamos, uma fração tem de vir de investimentos externos”, explicou Pierandrea Renna, que sublinhou que essa capacidade é essencial para sustentar o crescimento.
A Spiro, vencedora do Prémio de Infraestrutura Resiliente em 2024, vende motos elétricas com baterias amovíveis, o que permite que o utilizador troque a bateria descarregada por uma carregada nas estações da empresa, em vez de abastecer com combustível. Como a eletricidade é muito mais barata do que a gasolina, cada condutor, na maioria taxistas ou estafetas, poupa entre 1 e 2 dólares por dia em combustível. “Isso ajuda-os a comer melhor e a ter acesso a cuidados de saúde”, explicou Rahul Chaudhary.
A empresa, que tem quatro linhas de montagem no Quénia, Ruanda, Uganda e Nigéria, algumas delas operadas por mulheres, passou de 20 mil motos vendidas por ano para 80 mil em 2024. A meta para este ano é chegar às 150 mil.
A FIKA, anteriormente Bridges to Prosperity, aplicou inteligência artificial a imagens de satélite e triplicou o número de cursos de água mapeados mundialmente. Mudou também de missão, que passou de construir pontes para ajudar governos a decidir onde construí-las. “Percebemos que não era a ponte a solução, era o acesso”, disse Nivi Sharma, que explicou que agora “a nossa missão é garantir chegadas seguras para toda a gente, em todo o lado”.
Choques geopolíticos são desafio
Com a retirada da USAID a agitar o setor, o painel debateu como as organizações se adaptam num contexto internacional mais complexo. “Quando a ajuda começa a escassear, muitas ONG apanham uma constipação”, afirmou Nivi Sharma, que encontra, porém, o lado positivo: governos com menos recursos tornaram-se mais recetivos a investimentos estratégicos. “Devo construir outro aeroporto caro ou mil pequenas pontes para as comunidades rurais, onde estão os agricultores, onde os filhos vão à escola?”, perguntou.
A Sun King, por sua vez, não reage com alarme à volatilidade energética e refere que, na Nigéria, após o fim dos subsídios ao combustível, as vendas de inversores solares da empresa multiplicaram-se por 15. “Como empresa de energia, há desafios, mas também oportunidades neste tipo de situações”, reconheceu Pierandrea Renna.
Ed Mountfield sublinhou que antecipar riscos é condição de sobrevivência a longo prazo, em particular numa altura em que a imprevisibilidade faz parte da ordem do dia para empresas e cidadãos. A MIGA cobre riscos políticos fora do controlo das empresas, mas age também como interlocutora junto dos governos. “Se as regulações laborais não encontram o equilíbrio entre proteger os trabalhadores e permitir que as empresas funcionem, queremos trabalhar nessas questões”, explicou. O compromisso de alinhar 100% dos investimentos da MIGA com o Acordo de Paris inclui incorporar a adaptação climática, desde sementes resistentes à seca até técnicas de conservação de água, nos próprios modelos de negócio.
Rahul Chaudhary identificou a lacuna de competências como o maior obstáculo estrutural e explicou que, paradoxalmente, a retração das ONG libertou alguns talentos qualificados.
