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Negócios: Cotações, Mercados, Economia, Empresas

O capital privado precisa de um ponto de apoio público

O capital privado é uma grande alavanca para o desenvolvimento, mas precisa de condições para funcionar onde o risco é mais elevado. Ed Mountfield, vice-presidente e CFO da MIGA, defende que o papel das instituições públicas multilaterais não é substituir o investimento privado, mas reduzir a incerteza, gerir o risco político e mobilizar capital para projetos com impacto.

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Ed Mountfield defende investimento privado com apoio de instituições públicas multilaterais
Ed Mountfield defende investimento privado com apoio de instituições públicas multilaterais Fernando Costa
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Uma das grandes alavancas do desenvolvimento global é o capital privado. Mas nos mercados emergentes e nas economias em desenvolvimento, esse estímulo só funciona se existir um ponto de apoio capaz de reduzir riscos, criar confiança e juntar empresas, governos, instituições financeiras e comunidades. Aproveitámos a presença de Ed Mountfield na Grande Conferência Negócios Sustentabilidade 20|30 para conhecer melhor o trabalho desenvolvido pela MIGA - Agência Multilateral de Garantia dos Investimentos, do Grupo Banco Mundial, e perceber como os setores público e privado trabalham lado a lado para criar as condições que permitem ao investimento acontecer, crescer e gerar impacto.

O que é a MIGA e qual é o seu papel no Banco Mundial?

A MIGA, Agência Multilateral de Garantia dos Investimentos, é a entidade que acolhe a Plataforma de Garantias do Grupo Banco Mundial, disponibilizando seguros contra risco político, garantias de crédito e financiamento ao comércio externo a investidores estrangeiros que pretendem investir em mercados emergentes e em economias em desenvolvimento.

São mercados onde existem oportunidades de negócio muito interessantes e necessidades de desenvolvimento muito significativas. Mas, muitas vezes, o risco político no contexto local torna-se um obstáculo ao investimento. O nosso papel é ajudar a gerir estes riscos de forma inteligente, através de garantias e também através de uma função de mediador imparcial quando surgem disputas.

Isto permite às empresas concentrarem-se na vertente comercial das operações, enquanto nós ajudamos a mitigar os riscos políticos. No essencial, conseguimos abrir a porta a mais investimento. O nosso objetivo é maximizar o financiamento para o desenvolvimento, contribuindo para o combate à pobreza, para o aumento da prosperidade partilhada e fazendo-o de uma forma ambiental e socialmente responsável.

Quais são as grandes prioridades do Grupo Banco Mundial e da MIGA?

O Banco Mundial tem várias missões importantes. Uma delas é a Missão 300, que pretende ligar 300 milhões de pessoas em África à eletricidade até 2030. Hoje, há cerca de 600 milhões de pessoas em África sem acesso à eletricidade. Queremos reduzir este défice para metade até 2030, em parceria com o Banco Africano de Desenvolvimento e, naturalmente, com investidores privados.

Temos também o AgriConnect, que pretende ajudar 200 milhões de agricultores até 2030 a subir na cadeia de valor, ligando os seus negócios a mercados de maior valor acrescentado. Mais recentemente, anunciámos o Water Forward, centrado na segurança hídrica de 400 milhões de pessoas até 2030.

Os países mais pobres continuam a ser uma prioridade central. A MIGA anunciou recentemente a intenção de duplicar a emissão anual de garantias em África, dos atuais 3 mil milhões de dólares para 6 mil milhões de dólares por ano até 2030. Queremos aumentar a escala do nosso trabalho no continente, com foco na eletrificação, na conectividade agrícola e na segurança hídrica.

Como pode uma garantia alterar a economia de um projeto?

Dou um exemplo recente. Concedemos uma garantia à CrossBoundary Energy, que pretende investir em 100 projetos de minirredes solares para fornecer energia, em pequena escala, a clientes comerciais e industriais em 20 países africanos.

Um dos desafios que a empresa enfrentava era o risco de conseguir converter receitas locais em moeda estrangeira e repatriar lucros. A MIGA disponibiliza uma garantia de transferência e convertibilidade cambial, para que o investidor saiba que, se levar moeda estrangeira para o país, também poderá retirá-la. Isto está a viabilizar um investimento significativo em energias renováveis.

Investir em mercados emergentes pode gerar retornos superiores?

Existem, sem dúvida, riscos elevados em muitos destes países. Mas estamos otimistas quanto à capacidade dos investidores que aceitam esses riscos, e que trabalham com entidades como a MIGA para os gerir, de alcançarem bons retornos e fazerem crescer significativamente os seus negócios.

A questão não é ignorar o risco. É compreender como pode ser mitigado. Quando isso acontece, muitos projetos tornam-se não apenas viáveis do ponto de vista financeiro, mas também relevantes do ponto de vista do desenvolvimento. 

Quais são os maiores obstáculos ao investimento direto estrangeiro nestes mercados?

Há vários desafios. Em alguns países, o enquadramento macroeconómico não é suficientemente robusto. Pode existir risco de racionamento cambial, pressões orçamentais, inflação ou movimentos cambiais acentuados.

Há também riscos associados a fragilidades de governação, que podem traduzir-se em expropriação de ativos ou incumprimento contratual por parte do Estado ou de entidades públicas. Isto é particularmente relevante, por exemplo, quando uma empresa privada produz eletricidade e o comprador é uma entidade pública.

Além disso, em países mais frágeis ou afetados por conflitos, pode existir risco de guerra ou de perturbação civil. Temos produtos de garantia que retiram estes riscos do investidor e lhe permitem concentrar-se no negócio. 

Como se define o sucesso nestes projetos?

Ao nível mais elevado, a missão do Grupo Banco Mundial é acabar com a pobreza num planeta habitável. Hoje, cerca de 9% a 10% da população mundial ainda vive com menos de dois dólares por dia. E sabemos que, nos próximos 10 a 15 anos, cerca de mil milhões de jovens vão entrar no mercado de trabalho. Precisam de empregos que lhes deem dignidade, bem-estar e rendimento nos países onde vivem.

Por isso, a criação de emprego é uma parte essencial da equação. Temos também uma matriz de 22 resultados que medimos, avaliando a contribuição de cada projeto para alguns desses indicadores.

Naturalmente, olhamos também para o volume de garantias que emitimos, para o investimento que apoiamos e para o capital privado que conseguimos mobilizar. Desde a sua criação, há 38 anos, a MIGA emitiu 100 mil milhões de dólares em garantias acumuladas. Metade desse montante foi emitida apenas nos últimos seis ou sete anos, o que mostra uma aceleração muito significativa da nossa atividade. 

Para um investidor, o que pesa mais, o retorno financeiro ou o impacto social?

As pessoas que gerem empresas têm de ganhar dinheiro. Não são instituições de caridade nem organizações filantrópicas. Muitas também têm objetivos sociais positivos e querem contribuir para o mundo, mas precisam de gerar lucro e justificar a utilização do capital que os investidores colocam nos seus negócios.

O nosso trabalho é ajudá-las a alcançar sucesso empresarial e, ao mesmo tempo, contribuir para os objetivos públicos que os nossos acionistas nos mandatam para promover.

Apoiamos projetos que criam emprego, melhoram o acesso a serviços financeiros, ajudam mulheres empreendedoras a criar e escalar micro, pequenas e médias empresas, desenvolvem infraestruturas críticas, fornecem eletricidade, serviços digitais e conectividade nos transportes. Tudo isto contribui para o desenvolvimento. 

Como trabalham com as outras instituições do Grupo Banco Mundial, nomeadamente a IFC?

O Grupo Banco Mundial tem cinco braços. O BIRD e a IDA concedem empréstimos, créditos e subvenções a governos para projetos do setor público. A IFC disponibiliza dívida e capital a empresas privadas que operam em países em desenvolvimento e ajuda a mobilizar capital privado de outros investidores. O ICSID é um centro de resolução de litígios de investimento. E a MIGA acolhe a plataforma de garantias.

A MIGA não disponibiliza financiamento próprio. Garante investimentos diretos estrangeiros feitos por terceiros. Trabalhamos em equipa com as várias instituições do Grupo Banco Mundial.

Pode haver projetos em que a IFC contribui com capital próprio para desenvolver um investimento. Outros investidores privados entram depois no mesmo projeto ou em projetos adjacentes. A MIGA fornece garantias a esses investidores e o impacto torna-se maior. Ao mesmo tempo, o BIRD ou a IDA podem apoiar infraestruturas públicas ou reformas de políticas públicas que tornam os projetos mais viáveis. É um esforço conjunto. 

Estamos disponíveis para trabalhar com a comunidade empresarial portuguesa e gostaríamos muito de aprofundar este envolvimento. Ed Mountfield, Vice-Presidente e CFO da Agência Multilateral de Garantia dos Investimentos, do Grupo Banco Mundial

Como apoia a MIGA o desenvolvimento de projetos que sejam não apenas financeiramente sustentáveis, mas também ambiental e socialmente robustos a longo prazo?

No centro de tudo o que fazemos estão a parceria e a confiança. Como não temos financiamento próprio para emprestar, precisamos de trabalhar com investidores, com a indústria de resseguros, com os governos dos países anfitriões e com as comunidades.

Temos padrões ambientais e sociais muito elevados e procuramos integrá-los em todos os projetos. Investimos na capacidade dos nossos parceiros para gerir riscos, criar mecanismos de reclamação, antecipar desafios ambientais e sociais e construir medidas de mitigação.

Do ponto de vista climático, todos os projetos que apoiamos são avaliados para garantir que alcançam os seus objetivos da forma menos intensiva em carbono possível no contexto de cada país. Procuramos também identificar riscos climáticos e mitigá-los através de medidas de adaptação. Na agricultura, por exemplo, isso pode significar a utilização de sementes resistentes à seca ou de técnicas agrícolas adequadas a um mundo em aquecimento. 

A parceria com a Nova School of Business and Economics insere-se nesta lógica?

Sim. Na MIGA, procurávamos uma forma de aumentar a escala do apoio prestado aos beneficiários das nossas garantias na gestão de riscos ambientais e sociais. Queríamos investir na sua capacidade para gerir estes riscos de acordo com os padrões do Grupo Banco Mundial.

Identificámos a Nova como uma das principais escolas de economia e gestão, com forte foco na sustentabilidade e na gestão de riscos ambientais e sociais em contexto empresarial. Além disso, tem capacidade para disponibilizar formação em várias línguas e em diferentes regiões do mundo.

Recentemente, realizámos formação em quatro países africanos, incluindo países anglófonos, lusófonos e francófonos. Estive em Dacar, no Senegal, com colegas da Nova e da MIGA, numa formação conduzida em francês. Esta capacidade de oferecer conhecimento de qualidade em várias línguas foi um fator muito importante para avançarmos com esta parceria. Beneficiamos da experiência da Nova e acredito que também é útil para a universidade contactar com profissionais e casos reais que podem alimentar os seus programas. 

Esta parceria pode ser um modelo para outras colaborações académicas?

Acredito que sim. No Grupo Banco Mundial dizemos muitas vezes que não somos apenas um banco financeiro, somos também um banco de conhecimento. Parte do nosso capital é financeiro, mas outra parte é capital intelectual.

Temos economistas e especialistas altamente qualificados, mas sabemos que precisamos de nos ligar ao conhecimento das universidades em todo o mundo. Estamos muito interessados em aceder a essa experiência, tanto na Europa como noutras regiões. 

A MIGA é também parceira dos Africa Sustainable Futures Awards. Qual é o objetivo desta iniciativa?

Em 2026, pelo terceiro ano consecutivo, a MIGA será parceira do Financial Times na atribuição dos Africa Sustainable Futures Awards. O programa incentiva candidaturas de empresas africanas relativamente recentes e de pequena dimensão, com ideias inovadoras para combater a pobreza, apoiar a criação de emprego e fazê-lo de forma sustentável.

Existem várias categorias de prémios. O prazo de candidatura termina a 30 de junho. O júri é presidido por mim e por David Pilling, editor de África do Financial Times, e integra empresários que investem em África e representantes do sistema financeiro internacional. Os vencedores serão homenageados numa cerimónia em Londres. 

Que oportunidades existem para as empresas portuguesas em África?

África é um continente jovem, empreendedor e com recursos naturais muito significativos, desde terras agrícolas a minerais críticos. As oportunidades são enormes e atravessam vários setores.

Portugal tem uma tradição de engenharia muito forte. Acreditamos que existem muitas oportunidades em infraestruturas onde as empresas portuguesas podem desenvolver projetos bem-sucedidos, da energia aos transportes, da água à indústria e aos serviços.

Estes projetos podem contribuir para a criação de emprego e para a redução da pobreza de forma sustentável, mas também podem ser negócios rentáveis. Existem sempre riscos, naturalmente, mas muitos países africanos estão a realizar reformas importantes e a melhorar o ambiente regulatório para facilitar o sucesso empresarial. 

Que presença tem atualmente a MIGA nos mercados lusófonos?

Temos atualmente cerca de 900 milhões de dólares de exposição garantida em Angola e Moçambique. Temos também cerca de 1,5 mil milhões de dólares de exposição garantida no Brasil.

Portugal é um acionista muito valorizado no Grupo Banco Mundial e na MIGA, sendo também um contribuinte generoso para a IDA, o nosso fundo dedicado aos países mais pobres, que apoia muito trabalho público em África.

Mas gostaríamos de ver maior interesse por parte dos investidores portugueses e mais parceria com a MIGA. Portugal tem laços fortes com os países lusófonos em África, como Angola e Moçambique, e naturalmente com o Brasil. São mercados onde a MIGA e o Grupo Banco Mundial têm programas fortes e em crescimento.

Temos alguns titulares portugueses de garantias na MIGA, mas ainda são poucos. Estamos disponíveis para trabalhar com a comunidade empresarial portuguesa e gostaríamos muito de aprofundar este envolvimento. 

Que mensagem deixaria às empresas portuguesas que olham para estes mercados, mas receiam o risco?

Diria que as oportunidades existem e que o risco pode ser gerido. O papel da MIGA é precisamente ajudar as empresas a concentrarem-se nos fundamentos comerciais dos seus projetos, assegurando que os riscos políticos são bem geridos.

O capital privado pode ser uma grande alavanca para o desenvolvimento. Mas essa alavanca precisa de um ponto de apoio. É aí que entram instituições como a MIGA e o Grupo Banco Mundial. Não para substituir o investimento privado, mas para o ampliar.

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