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Economia circular precisa de conveniência, robôs e muito mais do que campanhas

Num workshop com quatro especialistas, ficou claro que sensibilizar o consumidor é necessário, mas não é suficiente para reduzir a distância entre a intenção e a ação.

15:40
Especialistas debatem a economia circular e a distância entre intenção e ação do consumidor.
Especialistas debatem a economia circular e a distância entre intenção e ação do consumidor. f
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Filipa Pantaleão, Constança Neiva Correia, Inês Baeta Neves, Lia Oliveira e Sofia Amaral defenderam que a economia circular só ganha escala quando a reciclagem, a devolução de embalagens e a separação de resíduos se tornam gestos simples, visíveis e integrados nas rotinas dos consumidores.

A maioria dos consumidores (80%) acredita que a sustentabilidade é das questões mais importantes do mundo, mas apenas 8% estão dispostos a pagar mais ou a mudar hábitos para lá chegar Foi com estes números que arrancou um dos workshops da parte da manhã da Grande Conferência Negócios Sustentabilidade 20|30, dedicado aos resíduos e à economia circular, moderado por Filipa Pantaleão, secretária-geral do BCSD Portugal, e com quatro especialistas de diferentes pontos da cadeia de valor: o retalho, a triagem, o sistema de depósito e a indústria de beleza. A conclusão foi unânime. O que falta é tornar a solução certa a solução mais fácil. Constança Neiva Correia, responsável pela sustentabilidade da Sonae MC, apresentou o Continente Ecospot como resposta direta a esse desafio. A infraestrutura centraliza a entrega de resíduos difíceis de encaminhar, como cápsulas de café, rolhas, pilhas, lâmpadas, óleos usados e têxteis, e funciona em todas as lojas do grupo. “Queremos tornar as soluções sustentáveis mais fáceis e, com isso, que sejam incluídas no seu dia-a-dia”, explicou.

Queremos tornar as soluções sustentáveis mais fáceis e, com isso, que sejam incluídas no seu dia-a-dia. Constança Neiva Correia, Responsável pela sustentabilidade da Sonae MC

O ponto de entrega já existia antes, mas estava escondido, pelo que dar-lhe destaque e visibilidade, num espaço junto à entrada das lojas, resultou em cerca de mil toneladas de resíduos recolhidos em 2024, com crescimento significativo após a instalação da versão atualizada. “São recursos, não resíduos”, sublinhou a responsável.

Robôs e IA entram nos centros de triagem

Do lado da triagem, Inês Baeta Neves, diretora de Inovação e Sustentabilidade da EGF, apresentou dois projetos-piloto em curso no centro de Lisboa: um braço robótico com visão computacional e inteligência artificial, e câmaras ao longo das linhas que monitorizam o processo em tempo real.

O braço robótico identifica e remove contaminantes no fluxo de embalagens, com mais de 30 movimentos por minuto, enquanto o sistema de câmaras, desenvolvido com a Grey Parrot, acompanha o fluxo de PET do início ao fim e deteta problemas em tempo real. “Isto transforma-nos a lógica”, disse Inês Baeta Neves. O projeto permitiu realocar trabalhadores de funções repetitivas para tarefas de maior valor e é escalável para outras linhas e empresas.

O sistema Volta, que entrou em operação a 10 de abril, foi o caso trazido por Lia Oliveira, diretora de Marketing e Comunicação da SDR Portugal. Ao comprar uma embalagem de bebida em plástico ou metal até 3 litros, o consumidor tem agora de pagar 10 cêntimos de depósito, recuperáveis ao devolver a embalagem numa das quase três mil máquinas instaladas em supermercados e hipermercados.

Quando vamos ao supermercado, levamos as embalagens vazias, devolvemos e recebemos de volta os 10 cêntimos. Lia Oliveira, Diretora de Marketing e Comunicação da SDR Portugal

“Não se pretende que as pessoas vão de propósito devolver as embalagens. Quando vamos ao supermercado, levamos as embalagens vazias, devolvemos e recebemos de volta os 10 cêntimos”, explicou. Portugal é agora o 19.º país europeu a adotar este modelo.

Comunicar para as novas gerações

Sofia Amaral, diretora científica e líder de sustentabilidade da L’Oréal Portugal, partilhou uma iniciativa diferente, que passa por levar influenciadores a um centro de triagem de resíduos. A empresa desafiou cerca de uma centena de criadores de conteúdo a separar os seus produtos de beleza seguindo a plataforma Reciclar em Beleza, criada com a Sociedade Ponto Verde, e levou-os a ver o que acontece depois da recolha.

As empresas estão num dilema. Temos de comunicar, mas de forma muito responsável. E às vezes nem sabemos como. Sofia Amaral, Diretora Científica e Líder de Sustentabilidade da L’Oréal Portugal

“Confrontaram-se com uma realidade que não conheciam. Foi bastante impactante: ‘eu não pensava que isto era assim’, ‘realmente é preciso separar’”, contou Sofia Amaral, explicando que o esforço resultou numa duplicação das visualizações da plataforma. A responsável identificou também um problema crescente. “As empresas estão num dilema. Temos de comunicar, mas de forma muito responsável. E às vezes nem sabemos como”.

Sensibilizar já não chega. Inês Baeta Neves, Diretora de Inovação e Sustentabilidade da EGF

Sobre o que falha depois das campanhas de sensibilização, Inês Baeta Neves considera que “sensibilizar já não chega”. A especialista reconheceu que o setor investiu dezenas, possivelmente centenas, de milhões de euros em campanhas ao longo de 25 anos, com resultados insuficientes. “Faz-se a campanha, tem impacto. Seis meses depois, esqueceram-se”, lamenta.

A solução passa, por isso, por trabalhar segmento a segmento, com consistência, e por tornar o processo tão simples que fazer bem seja mais fácil do que fazer mal. “Vocês já iam ao supermercado, então levem as embalagens de caminho”, apelou a SDR.

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