A adaptação climática e a autonomia estratégica europeia exigem mais previsibilidade regulatória, diversificação de soluções e cooperação entre Estado e empresas. A ideia marcou o debate.
“O papel das empresas na adaptação e autonomia estratégica europeia”, integrado na Grande Conferência Negócios Sustentabilidade 20|30, que reuniu representantes da indústria, da energia, da consultoria, do turismo e da diáspora portuguesa.
Cecília Meireles, secretária-geral da ATIC, defendeu que o principal desafio da indústria não está na ambição das metas climáticas, mas na falta de clareza sobre a sua aplicação.
“O principal desafio é a previsibilidade”, afirmou, lembrando que setores como o cimento precisam de investir em tecnologias pesadas, como a captura de carbono, mas continuam confrontados com regras incompletas e critérios ainda pouco claros. Para a antiga deputada, “não basta haver um roteiro”. É preciso que esse roteiro seja executado com estabilidade regulatória.
Previsibilidade para investir, autonomia para resistir
No setor energético, Gabriel Sousa, CEO da Floene, sublinhou que a autonomia estratégica passa por diversificar soluções e apostar na produção endógena. O biometano, por poder ser integrado na rede existente e reduzir custos de transformação para a indústria, surge como uma das respostas possíveis. Até ao final do ano, adiantou, cinco projetos deverão começar a injetar biometano na rede nacional. Ainda assim, avisou, “não há uma solução única” para a transição energética.
Ivone Rocha, partner da Deloitte Legal Telles, defendeu uma nova geração de cooperação entre Estado e empresas, não apenas para desenvolver projetos, mas para construir soluções e gerar consensos. Num contexto em que guerras, tempestades e catástrofes naturais afetam infraestruturas públicas e privadas, a consultora considerou que a resposta tem de ser integrada. “Um problema holístico como é o problema climático carece de uma abordagem holística”, afirmou, defendendo que a regulação deve funcionar como facilitador da mudança e não como travão.
Antecipar crises em vez de reagir a choques
David Castro, conselheiro do Conselho da Diáspora Portuguesa e investigador nos países nórdicos, trouxe a comparação com economias que, segundo disse, se distinguem pela capacidade de antecipar crises em vez de apenas reagir a choques. Para o investigador, Portugal continua demasiado centrado numa visão limitada da produtividade, quando o verdadeiro problema está na alocação de capital, na estrutura da atividade económica e na organização da economia.
A perspetiva do turismo foi trazida por Pedro Fino, CFO do Grupo Pestana, que destacou a capacidade de adaptação construída pelo setor ao longo de sucessivas crises, da crise financeira à pandemia. Hoje, explicou, o grupo consegue abrir ou fechar unidades em poucos dias, mobilizar equipas entre hotéis e usar tecnologia comum em diferentes geografias. Para o gestor, a resiliência depende também da relação com as comunidades locais, que funciona como amortecedor em momentos de crise.
A adaptação climática exige metas claras, execução consistente e empresas capazes de responder mais depressa a fenómenos extremos, choques geopolíticos e novas exigências regulatórias.
