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Faltam cerca de 300 anos para haver plena igualdade de género

Novo relatório da ONU Mulheres indica que o 5.º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável não será alcançado em 2030. As crises globais estão a causar regressões em várias frentes dos direitos das mulheres.

Sónia Santos Dias 12 de Setembro de 2022 às 12:24
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Ao ritmo atual de progresso, ainda poderão ser necessários cerca de 300 anos para se atingir a plena igualdade de género no mundo, conclui o novo relatório da ONU Mulheres, em colaboração com o Departamento de Assuntos Económicos e Sociais da ONU (DESA), intitulado "Progresso nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: O Retrato do Género 2022".

Os desafios globais, tais como a pandemia de COVID-19 e as suas consequências, os conflitos violentos, as alterações climáticas, o retrocesso na área da saúde sexual e reprodutiva e nos direitos das mulheres estão a contribuir para exacerbar ainda mais as disparidades de género, pelo que o 5º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que tem a ambição de atingir a igualdade de género em 2030, não será concretizada.

"Este é um ponto de viragem para os direitos das mulheres e a igualdade de género, à medida que nos aproximamos da metade do caminho para 2030. É fundamental que nos mobilizemos agora para investir nas mulheres e raparigas, para recuperar e acelerar o progresso. Os dados mostram inegáveis regressões nas suas vidas, agravadas pelas crises globais - em termos de rendimentos, segurança, educação e saúde. Quanto mais tempo demorarmos a inverter esta tendência, mais isso nos custará a todos", refere Sima Bahous, diretora executiva da ONU Mulheres, em comunicado.

O relatório estima que, ao ritmo atual de progresso, serão necessários 286 anos para colmatar lacunas na proteção legal e eliminar leis discriminatórias; 140 anos para que as mulheres estejam igualmente representadas em posições de poder e liderança no local de trabalho; e pelo menos 40 anos para alcançar uma representação igual nos parlamentos nacionais.

Inversão das conquistas alcançadas

O relatório também aponta para uma preocupante inversão na redução da pobreza, com o aumento dos preços a agravar ainda mais esta tendência. No final de 2022, cerca de 383 milhões de mulheres e raparigas viverão em extrema pobreza (com menos de 1,90 euros por dia), em comparação com 368 milhões de homens e rapazes. Mas serão muitas mais as que terão rendimentos insuficientes para satisfazer necessidades básicas, tais como alimentação, vestuário, e abrigo adequado, na maior parte do mundo.

A ONU Mulheres olha também para a guerra na Ucrânia como um fator potenciador de desigualdades. A guerra em curso no país está a agravar a insegurança alimentar e a fome, especialmente entre mulheres e crianças, devido às limitações de fornecimento de trigo, fertilizantes e combustível, fomentando ainda a inflação. Em 2021, cerca de 38% das famílias chefiadas por mulheres em áreas afetadas pela guerra sofreram de insegurança alimentar moderada ou grave, em comparação com 20% das famílias chefiadas por homens.

"Crises globais em cascata estão a pôr em perigo a realização dos ODS, com os grupos populacionais mais vulneráveis do mundo desproporcionadamente afetados, em particular mulheres e raparigas. A igualdade de género é uma base para alcançar todos os ODS e deveria estar no centro de uma melhor reconstrução", assinala Maria-Francesca Spatolisano, secretária-geral adjunta para a Coordenação de Políticas e Assuntos Interagências do DESA.

A nível mundial, as mulheres perderam um rendimento estimado em 800 mil milhões de dólares em 2020 devido à pandemia, e apesar de uma recuperação prevê-se que a sua participação nos mercados de trabalho seja inferior em 2022 do que era antes da pandemia (50,8%, em comparação com 51,8% em 2019).

Em 2020, o encerramento de escolas e pré-escolas exigiu 672 mil milhões de horas adicionais não remuneradas de cuidados infantis a nível mundial. As mulheres terão suportado 512 mil milhões dessas horas. O relatório assinala que a educação universal das raparigas, embora não seja suficiente por si só, melhora significativamente esta realidade. Cada ano adicional de escolaridade pode aumentar os rendimentos de uma jovem adulta em até 20%, com mais impacto na redução da pobreza, melhor saúde materna, menor mortalidade infantil, maior prevenção do VIH, e menor violência contra as mulheres.

Assim, ressalta o relatório, sem uma ação rápida, os sistemas legais que não proíbem a violência contra as mulheres, não protegem os direitos das mulheres no casamento e na família, não proporcionam salários e benefícios iguais, ou que não garantem direitos iguais para possuir e gerir a terra podem continuar a existir durante gerações vindouras.

O relatório mostra que a cooperação, parcerias e investimentos na agenda da igualdade de género, inclusive através do aumento do financiamento global e nacional, são essenciais para corrigir o curso e colocar a igualdade de género novamente no bom caminho.

 

 

 

 

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