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Filipe Duarte Santos: "As alterações climáticas estão a atingir uma proporção que tem implicações no crescimento económico"

Comprovada que está pela ciência a emergência climática, Duarte Santos, keynote speaker do evento, questiona se existe vontade e determinação para resolver o problema à escala global e quem vai pagar a fatura da transição energética.

Sónia Santos Dias 13 de Setembro de 2021 às 14:00
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O mundo está perante uma emergência climática. Tal já é irrefutável devido aos fenómenos extremos crescentes e globais que temos vindo a assistir um pouco por todo o planeta, com especial incidência neste ano de 2021, como pudemos ver nas cheias que varreram inesperadamente diversas comunidades na Alemanha, Bélgica e Holanda, no passado mês de julho.

"As alterações climáticas estão a atingir uma proporção que tem implicações no crescimento económico à escala global e também à escala de cada um dos países", começa por referir Filipe Duarte Santos, professor catedrático da Universidade de Ciências da Faculdade de Lisboa e presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS), na talk "Descarbonização: Atuar já compensa", organizada pelo Jornal de Negócios, naquele que é o segundo ciclo de talks sobre sustentabilidade do jornal.

O keynote speaker salientou que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera tem vindo a aumentar sistematicamente desde o início da Revolução Industrial, mas sobretudo desde a década de 1960, trazendo graves consequências para o planeta. "É necessário mudar o paradigma, sobretudo no setor da energia, e passar a utilizar energias renováveis e não combustíveis fósseis", afirmou na sua apresentação.

O planeta já está a uma temperatura cerca de 1,1 °C acima do período pré-industrial, sendo que o Acordo de Paris preconiza que não se deve ultrapassar 1,5 °C. "As consequências são o aumento de fenómenos meteorológicos extremos, com vítimas e prejuízos materiais muito elevados. No nosso país também temos, nomeadamente incêndios florestais e rurais de grandes dimensões. E estes eventos climáticos extremos têm efeitos sobre a economia", destaca o professor catedrático.

Por cá, a precipitação também tem diminuído bastante nos últimos 50 anos. "A partir dos finais da década de 1960, há um decréscimo muito acentuado da precipitação nos meses de janeiro, fevereiro e março, e isto é algo que tem consequências sobre vários setores socioeconómicos, em particular na agricultura e nos setores em que a água é um bem essencial", explicou.

Uma fatura global
Comprovada que está a emergência climática pela ciência, Filipe Duarte Santos questiona se existe vontade e determinação para resolver o problema à escala global e também quem vai pagar a fatura da transição energética, já que temos um mundo a diferentes velocidades e com diversas realidades económicas. "Já passou muito tempo desde que o conhecimento científico chegou às conclusões que foram agora salientadas pelo IPCC [Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas]. Mas há vontade para resolver o problema à escala global?" A resposta a esta pergunta, diz, iremos ter na Conferência do Clima da ONU (COP 26), a ter lugar em Glasgow em novembro. "Todos os países foram convocados a enunciar a sua contribuição para a redução das emissões, mas muitos deles não o fizeram ainda de forma clara. As contribuições que fizeram até agora para a redução das emissões não foram suficientes para não ultrapassarmos o aumento de 1,5 °C ou os 2 °C. Estamos ainda bastante longe do caminho definido", afirma.

Quem vai pagar a descarbonização é também "uma questão que está ainda em aberto". Agora, o certo é que é preciso não só chegar às emissões zero globais, como também apostar nas chamadas "emissões negativas", ou seja, é necessário retirar da atmosfera o dióxido de carbono acumulado durante centenas de anos. Portanto, o caminho passa por apostar em diversas tecnologias verdes para desenvolver a atividade humana, mas também valorizar o ambiente para que este faça o seu trabalho de controlo da temperatura e retenção de CO2. Por exemplo, "as emissões negativas dependem de termos uma floresta saudável e uma floresta cuja área não se reduza de forma significativa devido aos incêndios florestais", conclui.
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