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Guerra e lentidão legislativa atrasam descarbonização

As empresas querem descarbonizar os seus negócios, mas precisam de tempo e de investimento para o fazer. Por outro lado, numa sociedade assente nos combustíveis fósseis, pressionar para a mudança pode fazer emergir distúrbios sociais.

Sónia Santos Dias 31 de Outubro de 2022 às 17:30
Guerra e lentidão legislativa atrasam descarbonização
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A necessidade de descarbonizar a indústria e a sociedade é consensual, no entanto, os timings entre as diretrizes políticas e legislativas, muitas vezes, andam desfasadas da realidade das empresas, pondo pressão onde não existe capacidade de investimento. Esta foi uma das principais conclusões do debate "Descarbonizar a Indústria - o Desafio da Guerra", na conferência ESG do Negócios Sustentabilidade 20|30 dedicada ao ambiente, que decorreu a 20 de outubro, na Estufa Real, em Lisboa, e que teve a moderação da jornalista do Negócios, Marta Velho.

A descarbonização vai depender do preço da eletricidade, pois sem eletricidade barata não haverá hidrogénio barato. Carlos Abreu
administrador da Secil
A guerra na Ucrânia está a impactar os planos de descarbonização, atrasando as metas europeias e mundiais, na medida em que "a descarbonização vai depender do preço da eletricidade, pois sem eletricidade barata não haverá hidrogénio barato", referiu Carlos Abreu, administrador da Secil. Acrescentando que "para haver uma descarbonização, para além do preço da eletricidade impactado pela guerra, há a questão da legislação europeia que é muito lenta. Já devíamos saber o que vai acontecer no próximo ano e não sabemos; se eu quiser fazer um eFuel numa fábrica de cimento não sei quais são as condições". Desta forma, foi assumido que a guerra e a lentidão para implementar as alterações necessárias podem fazer resvalar o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5 graus.

Carlos Abreu evidenciou também que algumas novas tecnologias verdes ainda não estão maduras, que são necessários materiais, como lítio e cobalto, para fazer a eletrificação e que esta é uma corrida contra o tempo.

A guerra vai acelerar o abandono dos combusteis fósseis e o crescimento das renováveis. Joana Freitas
administradora da EDP Produção
Neste caminho, Joana Freitas, administradora da EDP Produção, concorda que "no imediato, a guerra na Ucrânia pode ter um efeito de desvio na rota para a descarbonização", uma vez que foi necessário substituir energia "que num espaço de meses não pode ser substituída com a construção de parques solares ou eólicos", já a médio prazo "este conflito vai acelerar a transição energética, porque criou uma urgência". "Já não estamos a falar de metas para 2030 ou 2050 quando está em causa a soberania nacional, a defesa e os valores civilizacionais", acrescentou Joana Freitas. Neste sentido, "a guerra vai acelerar o abandono dos combusteis fósseis e o crescimento das renováveis". E o facto de o preço das energias fósseis estar mais elevado "vai tornar um conjunto de tecnologias verdes mais atrativas", acrescentou.

Não há nenhuma empresa que não queira ter menos custos e mais produção, mas tem de haver investimento. Pedro Fernandes
Climate Change Business Developer da APCER
A tecnologia é precisamente uma das armas para acelerar a descarbonização. Pedro Fernandes, Climate Change Business Developer da APCER, ressaltou que as empresas estão preocupadas com a descarbonização, mas travam um pouco perante o investimento. Porém, explica que "as tecnologias têm evoluído muito e as mais modernas vão reduzir o consumo e produzir mais". "Não há nenhuma empresa que não queira ter menos custos e mais produção, mas tem de haver investimento".

As empresas começam a perceber a necessidade de investir na digitalização e em nova maquinaria. Jéssica Barreto
coordenadora de Projetos Técnicos e Sustentabilidade da Saint-Gobain
Investir é aqui a decisão a tomar. Jéssica Barreto, coordenadora de Projetos Técnicos e Sustentabilidade da Saint-Gobain, referiu que as empresas têm noção da necessidade de investir em tecnologia para descarbonizar a atividade. "Cada vez se fala mais na indústria 4.0 e as empresas começam a perceber a necessidade de investir na digitalização e em nova maquinaria". Tal vai não só reduzir o desperdício de matérias-primas, poupando recursos e promovendo a circularidade, mas também acelerar e automatizar processos tornando-os mais eficientes. Jéssica Barreto salientou neste sentido que "apesar de o investimento poder ser dispendioso, compensa a longo prazo, pelo que é uma questão de tomada de consciência das empresas para a indústria 4.0".

Não temos ainda os mecanismos para fazer tudo o que é necessário. José Eduardo Martins
sócio da Abreu Advogados
Já José Eduardo Martins, sócio da Abreu Advogados, destacou que a necessidade de descarbonizar já é conhecida há muito, "mas a realidade deixa-nos condicionados por muitas coisas", referindo que a população mundial cresceu exponencialmente nas últimas décadas e está a pressionar o planeta. "Ao criarmos este awareness estamos a fazer uma divisão entre pobres e ricos, que vai provocar uma nova luta de classes", referiu José Eduardo Martins, exemplificando que muitas pessoas ainda precisam do carro para se deslocar. A realidade, referiu, é que "nós não temos ainda os mecanismos para fazer tudo o que é necessário". E na medida em que o número de pessoas é cada vez maior e os recursos disponíveis não aumentam, "ou fazemos a redistribuição ou teremos a revolução. E para fazermos a redistribuição temos de ter a coragem de dizer que não vamos todos viver como dantes", sublinhou. O advogado declarou também que "eu não quero usar carvão, o meu único problema é que 65% das emissões mundiais estão em sítios onde o ativismo não existe", pelo que "nós só temos pressão para a mudança nas sociedades democráticas". O advogado referiu que acredita na necessidade profunda de mudança, mas as questões económicas e geopolíticas interferem nestes planos, na medida em que grandes potencias como a China ou a Índia continuam e vão continuar a usar carvão.
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