A indústria europeia de veículos pesados conseguiu um pequeno alívio no calendário da descarbonização, mas insiste que a medida de Bruxelas está longe de resolver o problema de fundo. A Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) celebrou a adoção formal da alteração ao regulamento europeu de CO2 para veículos pesados, por considerar que corrige uma falha no desenho das regras atuais. Ainda assim, avisa que a transição para camiões de zero emissões está a avançar demasiado devagar.
Com a nova proposta da Comissão Europeia, os fabricantes passam a poder gerar créditos de emissões sempre que os novos veículos fiquem abaixo da meta de CO2 em vigor entre 2025 e 2029, fixada em 15% face ao valor de referência. Até aqui, essa contabilidade era feita com base numa trajetória linear de redução que a indústria considerava desajustada.
Para a ACEA, trata-se de uma “primeira etapa importante”, porque melhora a capacidade do setor para acumular créditos antes de 2030 e suaviza a passagem para metas muito mais exigentes nessa década. A associação faz questão de sublinhar, aliás, que a alteração “não revê, reduz ou reabre” os objetivos de CO2 para 2030, 2035 e 2040.
Ainda assim, a associação lembra que, em 2025, os veículos de zero emissões representaram apenas 2% dos registos de camiões pesados com mais de 16 toneladas na União Europeia (UE) e 14,8% dos camiões médios, entre 3,5 e 16 toneladas. Para os fabricantes, estes números mostram que existe um desfasamento considerável entre a ambição da regulação e as condições reais no terreno.
Segundo os representantes do setor, a infraestrutura dedicada de carregamento e hidrogénio para veículos pesados continua a ser “claramente insuficiente”, enquanto os custos da energia mantêm-se demasiado elevados e o modelo económico para os operadores de transporte é frágil.
“A indústria dos veículos comerciais está firmemente comprometida com a descarbonização e investe há anos, de forma significativa, em tecnologias de zero emissões”, considera Karin Rådström, presidente e CEO da Daimler Truck e responsável pelo conselho de veículos comerciais da ACEA. A gestora considera que o facto de “superar as metas de CO2 passar a ser creditado no futuro é uma correção justa e importante”, mas avisa que “não é suficiente para garantir a transição para um transporte neutro em CO2”.
Por isso, a ACEA defende uma revisão mais abrangente do regulamento europeu. “Precisamos urgentemente de uma revisão completa das regras de CO2, para que os ambiciosos objetivos de redução estejam ligados ao ritmo de implantação da infraestrutura e à viabilidade económica para os nossos clientes”, afirma Karin Rådström.
A associação europeia insiste que esta alteração não resolve o problema estrutural de condições de suporte à transição, desde logo porque não cria medidas do lado da procura, não reforça as obrigações ligadas à infraestrutura para combustíveis alternativos e não traz novo apoio financeiro para acelerar a rede necessária ao transporte de zero emissões.