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Soluções verdes podem cortar até 40% do stress térmico urbano, apontam investigadores

Um estudo com a participação de cientistas portugueses mostra ganhos concretos em Lisboa, mas alerta que a adaptação, por si só, não elimina os efeitos negativos das alterações climáticas.

20:46
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Plantar mais árvores, aumentar as áreas verdes e remover superfícies impermeabilizadas como o betão e o asfalto pode reduzir de forma significativa o stress térmico nas cidades. Um estudo internacional coliderado por investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa conclui que estas intervenções podem, em alguns casos, traduzir-se em até 40% menos dias de exposição a condições de calor extremo para as populações urbanas. O trabalho analisou a Área Metropolitana de Lisboa e Islamabad, no Paquistão, para medir o impacto de diferentes soluções de planeamento urbano.

Apesar dos benefícios, os autores sublinham que “as soluções baseadas na natureza, por si só, não são suficientes para compensar os impactos futuros das alterações climáticas”, sobretudo num cenário em que as políticas atuais ficam aquém do necessário. As medidas aliviam o problema, mas não chegam para anular o agravamento do calor das áreas urbanas que está projetado para as próximas décadas.

O estudo mostra também que nem todas as soluções atuam da mesma forma. Durante o dia, as árvores são particularmente eficazes, sobretudo quando surgem em áreas contínuas e alargadas, e permitem reduzir as temperaturas diurnas em cerca de 0,5 graus Celsius. À noite, o maior efeito surge a partir da eliminação de superfícies impermeabilizadas, uma medida que pode cortar entre 10% e 20% o número de dias com stress térmico. Esse ganho é especialmente relevante porque ajuda a combater um dos efeitos mais invisíveis das ondas de calor, que os investigadores dizem ser a perda de sono.

Outro dado relevante, apontam, é o processo que esteve por trás das propostas analisadas. As soluções foram cocriadas ao longo de três anos com representantes dos 18 municípios da Área Metropolitana de Lisboa, especialistas em governação climática e académicos, o que, para os investigadores, torna esta dimensão participativa decisiva para garantir a eficácia técnica, mas também a aceitação social e a aplicação prática.

“O estudo mostra que o planeamento urbano inteligente pode fazer uma diferença real na qualidade de vida das populações urbanas, mas também evidencia que existem limites claros à adaptação. Reduzir emissões e travar o aquecimento global continua a ser fundamental”, afirma Tiago Capela Lourenço, coautor do estudo e investigador da Ciências UL e do CE3C.

As conclusões apontam ainda que, ao nível das políticas públicas, as intervenções devem ser concentradas em zonas densamente povoadas e que o planeamento urbano deve integrar de forma estratégica soluções verdes e azuis. Ao mesmo tempo, defendem, a resposta ao calor extremo exige uma abordagem que seja capaz de combinar adaptação, ação climática e justiça social, tendo em conta o maior impacto sobre populações mais vulneráveis.

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