Os Estados Unidos vão abandonar dezenas de organismos internacionais e agências das Nações Unidas, incluindo a principal convenção global sobre alterações climáticas, numa decisão anunciada esta quarta-feira. Donald Trump justificou a retirada com o argumento de que estas instituições “operam contra os interesses nacionais” dos EUA.
Entre os 66 organismos identificados estão 31 entidades da ONU e 35 organizações não pertencentes ao sistema das Nações Unidas. Entre eles, a saída da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (UNFCCC), que é considerada o pilar central do regime climático internacional e o tratado-base do Acordo de Paris. A confirmar-se, os Estados Unidos serão o único país do mundo fora deste quadro.
Washington prepara-se também para abandonar a agência da ONU para a igualdade de género e o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), ativo em mais de 150 países nas áreas do planeamento familiar e da saúde materna e infantil. O financiamento americano a este último programa já tinha sido cortado no ano passado.
Segundo a Casa Branca, a retirada implica o fim da participação e do financiamento “na medida permitida por lei” e integra uma revisão geral dos compromissos internacionais dos EUA. O objetivo, diz a administração, é pôr termo ao envolvimento em entidades que promovem “agendas globalistas”, políticas climáticas consideradas “radicais” e modelos de governação que colidem com a soberania e a força económica americanas.
As reações internacionais não demoraram a ouvir-se e têm sido duras, a começar por Guterres, que lamentou a saída dos EUA destas organizações. O responsável do clima das Nações Unidas, Simon Stiell, classificou a decisão como um erro estratégico “colossal”, alertando que a saída enfraquece a economia americana e agrava riscos num contexto de fenómenos extremos cada vez mais frequentes.
Na Europa, a vice-presidente executiva da Comissão Europeia, Teresa Ribera, acusou a administração norte-americana de abdicar dos valores fundamentais da cooperação internacional. “A Casa Branca não se preocupa com o ambiente, a saúde ou o sofrimento das pessoas. Paz, justiça, cooperação ou prosperidade não fazem parte das suas prioridades. Nem sequer o grande legado dos EUA na governação global”, escreveu nas redes sociais.
Nos EUA, o antigo vice-presidente Al Gore afirmou que a decisão representa um retrocesso histórico e que, “ao retirar-se do IPCC, da UNFCCC e de outras parcerias internacionais vitais, a administração Trump está a desfazer décadas de diplomacia arduamente conquistada, a tentar minar a ciência climática e a semear desconfiança em todo o mundo”.