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Modelos económicos estão a “falhar o radar” do risco climático, alertam cientistas

Um novo relatório defende que as ferramentas usadas por governos e investidores subestimam os impactos físicos cada vez mais extremos e pede mais preparação para choques sistémicos.

16 de Fevereiro de 2026 às 19:40
Carro destruído perto de um rio após inundações
Carro destruído perto de um rio após inundações
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Os modelos económicos que orientam decisões de governos, bancos centrais e investidores estão a subestimar o risco físico das alterações climáticas à medida que o mundo se aproxima dos 2 graus Celsius de aquecimento. O alerta vem de um novo relatório da Universidade de Exeter e da Carbon Tracker, baseado no contributo de mais de 60 cientistas do clima, que identifica uma “falha de radar” nas ferramentas usadas para medir danos e planear políticas.

 “Recalibrating Climate Risk” conclui que muitos modelos não conseguem captar eventos extremos, choques em cadeia e incerteza crescente, considerados essenciais para avaliar um planeta mais quente. Jesse Abrams, autor principal, diz que existe “uma desconexão fundamental” entre a ciência e a economia, e alerta que “não estamos a falar de ajustamentos económicos geríveis”. “Os modelos subestimam sistematicamente os danos porque não captam as falhas em cascata, os efeitos-limiar e os choques compostos”, acrescenta.

A crítica não é nova, mas ganha urgência num contexto em que os impactos deixam de ser marginais para se tornarem estruturais. Segundo o relatório, ondas de calor, cheias e secas, e não as médias globais, é que definem o custo económico real e afetam vários setores. Essa natureza não linear põe, defende o estudo, em causa o pressuposto central de muitos modelos de que o crescimento continua indefinidamente, apenas a um ritmo mais lento.

Mas um dos outros problemas identificados é o que consideram ser a dependência do PIB para medir os danos, um indicador que pode “mascarar” perdas ao ignorar mortalidade e morbilidade, além da desigualdade, degradação dos ecossistemas e disrupção social. Além disso, avisam, o PIB até pode subir após desastres, por via da despesa de recuperação, criando uma falsa sensação de resiliência.

À medida que o aquecimento global se aproxima dos 2 graus Celsius, os próprios cientistas avisam que o futuro se torna muito mais imprevisível e, apesar dos modelos continuarem a apresentar números que parecem exatos, os riscos de ruturas repentinas e de acontecimentos extremos tornam cada vez menos fiáveis as previsões de crescimento económico. Por isso, o relatório defende que decisores e reguladores devem trabalhar com vários cenários e não apostar tudo numa única projeção “mais provável”.

O relatório avisa reguladores e investidores que, mais do que tentar “acertar no preço” do risco climático, o essencial é garantir que o sistema financeiro aguenta choques graves, o que implica olhar menos para cenários médios e mais para eventos extremos e para as fragilidades do sistema. Para quem investe a longo prazo, os autores alertam ainda que a diversificação tradicional pode dar uma falsa sensação de segurança, enquanto, na prática, os portefólios ficam cada vez mais expostos a choques que afetam muitos setores ao mesmo tempo.

Mark Campanale, da Carbon Tracker, alerta que conselhos económicos errados levam a que o risco climático continue a ser subavaliado e deixe fundos de pensões e contribuintes expostos. Já Laurie Laybourn, diretor executivo da Strategic Climate Risks Initiative, diz que, apesar da mudança na escala e na velocidade dos riscos, a regulação ainda não acompanhou a realidade.

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