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Pobreza persistente volta a subir e atinge quase um em cada dez portugueses

Depois de uma década de melhorias, a pobreza persistente agravou-se em Portugal em 2025. Um estudo da Nova SBE revela que mais de 60% das pessoas pobres já estavam nessa situação há vários anos.

Em 2025, 9,5% da população residente em Portugal estava em risco de pobreza persistente.
Em 2025, 9,5% da população residente em Portugal estava em risco de pobreza persistente. Pedro Catarino
18 de Outubro de 2026 às 21:21
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Para a maioria das pessoas que estavam em risco de pobreza em 2025, a falta de rendimento prolongava-se há vários anos. É esta a principal conclusão de um estudo da Nova SBE divulgado na semana passada, que revela também uma inversão na tendência de melhoria registada ao longo da última década.

Em 2025, 9,5% da população residente em Portugal estava em risco de pobreza persistente, contra 7,1% no ano anterior. O indicador tinha recuado desde os 13,6% registados em 2015, apesar de algumas oscilações. Entre os portugueses em risco de pobreza no último ano, que representavam 15,4% da população, quase dois terços (61,7%) encontravam-se nessa situação de forma persistente.

Os números constam do estudo Trajetórias da Pobreza e da Privação – Uma análise da última década, elaborado por Bruno P. Carvalho, João Fanha, Miguel Fonseca e Susana Peralta no âmbito do projeto Portugal, Balanço Social, da Iniciativa para a Equidade Social, uma parceria entre a Fundação la Caixa, o BPI e a Nova SBE.

A diferença face às estatísticas habituais está no tempo, já que, em vez de observar apenas os rendimentos de um ano, os investigadores acompanharam as mesmas pessoas durante quatro anos. Considera-se persistente a pobreza que se verifica no ano analisado e em pelo menos dois dos três anteriores. Como explica o estudo, “duas pessoas pobres, digamos em 2025, podem estar em situações muito diferentes, consoante o seu percurso de entradas e saídas da situação de pobreza”.

Entre 2022 e 2025, um quarto da população (25,6%) esteve em risco de pobreza pelo menos uma vez. Para 8,8%, a situação durou apenas um ano, mas 6,9% permaneceram abaixo do limiar de pobreza durante os quatro anos. Os restantes 74,4% nunca estiveram nessa condição. A nota divulgada com o estudo sublinha que a abordagem permite “distinguir situações transitórias de vulnerabilidade de situações em que a pobreza e a privação se prolongam no tempo”.

Os autores alertam que quem está há muito tempo na pobreza tem maior “probabilidade de ter cristalizado mecanismos de exclusão difíceis de reverter”. A análise revela ainda que 64,6% das pessoas que integravam os 20% com rendimentos mais baixos em 2022 continuavam no mesmo grupo três anos depois.

A idade também mudou o retrato da pobreza persistente. Há dez anos, as crianças eram o grupo mais exposto, com uma taxa de 18,1%. Em 2025, o valor tinha descido para 9,3%, ficando abaixo dos 10,6% registados entre os maiores de 65 anos. Na população entre os 18 e os 64 anos, a taxa era de 9%. As mulheres continuavam ligeiramente mais expostas do que os homens, com taxas de 10% e 9%, respetivamente.

Em 2025, 5,8% dos residentes estavam em privação material e social persistente e 1,8% em privação severa persistente. Durante pelo menos três dos quatro anos analisados, 25,4% não conseguiram pagar uma semana de férias fora de casa, 22,4% não puderam substituir móveis usados e 20,7% não tinham capacidade para enfrentar despesas inesperadas.

Entre as pessoas em pobreza persistente, 28,8% também enfrentavam privação material e social persistente, uma proporção muito superior aos 3,4% observados entre os restantes residentes. E, ao longo dos quatro anos, 62,8% dos primeiros passaram pelo menos uma vez por uma situação de privação.

As consequências surgem igualmente na forma como as pessoas avaliam a própria vida. Entre quem vivia em pobreza persistente, 11,5% declaravam-se nada ou pouco satisfeitos, contra 2,8% entre os restantes. Na população em privação persistente, 24,5% afirmavam não confiar nada nos outros, mais do triplo dos 7,2% registados fora dessa situação.

Os resultados assentam numa amostra representativa de 6.057 pessoas acompanhadas entre 2022 e 2025 através do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento. Os autores recorrem também a períodos anteriores para analisar a evolução da última década, embora não seja possível seguir os mesmos indivíduos durante mais de quatro anos.