Weekend  Virgolino Faneca explica os signos de António, Manuela e Marcelo

Virgolino Faneca explica os signos de António, Manuela e Marcelo

Trata-se de um título ardiloso porque leva a pensar que Virgolino Faneca se dedicou à arte dos horóscopos quando na realidade está apenas a usar a semiologia para fazer uma leitura da realidade. Uma homenagem (ou não) a Saussure.
 Virgolino Faneca explica os signos de António, Manuela e Marcelo
Celso Filipe 12 de outubro de 2018 às 17:00
Espero que esta te encontre bem no Céu dos intelectuais, onde estás certamente na qualidade de pai da semiologia, a qual definiste como a ciência que estuda "a vida dos sinais no seio da vida social, envolvendo parte da psicologia social e, por conseguinte, da psicologia geral".

Escrevo para reforçar a ideia de que o tempo que passaste a queimar pestanas e neurónios, suportando a maledicência de muitos, não foi em vão.

Graças aos teus ensinamentos, consigo descodificar os acontecimentos quotidianos que, à primeira vista, parecem nebulosos ou elaborados inspirando-se naquelas cifras intrincadas de espiões.

Para que esta epístola não pareça um mero exercício académico, junto-lhe três exemplos que servem para mostrar o préstimo dos teus signos enquanto representação do mundo, com os seus significados e significantes.

Exemplo 1.
António Costa em Monte Real

O primeiro-ministro, António Costa, foi visitar a Base Aérea de Monte Real, na companhia do ministro da Defesa, Azeredo Lopes, que anda em bolandas por causa do roubo de armamento do paiol de Tancos. Viu uns aviões, recebeu um casaco de cabedal de aviador e um capacete, e divertiu-se à brava, porque enquanto ali esteve safou-se dos professores e de outras corporações igualmente reivindicativas. Embora seja caranguejo de signo astral, o signo metafórico que presidiu a esta acção de Costa foi o de colocar Azeredo num F-16 e mandá-lo para o céu, dizendo-lhe que iria bater Richard Branson, tornando-se o pioneiro das viagens galácticas. Basta atentar na forma como olhou o seu ministro durante a visita para concluir que, semiologicamente falando, Costa o considera um cosmonauta

Exemplo 2.
Manuela Moura Guedes na SIC

Manuela Moura Guedes reapareceu nos ecrãs como comentadora, ostentando o título de Procuradora. Na sua estreia na SIC, Manuela exibiu um discreto fio amarelo, presumivelmente de ouro, o qual segurava uma pistola, um singelo ornamento que chamou a atenção de uma boa parte dos atentos telespectadores. A Procuradora, muito simplesmente, quis transmitir a seguinte mensagem: investida das minhas funções, o que disser está dito, não tem direito a contraditório e, se não for aceite a bem, vai à lei da bala. Para começo, não podia ser melhor. A pistola de Manuela, inspirada em 007 - O Homem da Pistola Dourada, onde Christopher Lee interpreta o papel de assassino profissional, é um símbolo de alguém que está agastada com a vida e que sublimou o seu desejo de assumir o lugar de Joana Marques Vidal, ocupando a cadeira que antes pertencia a Miguel Sousa Tavares.

Exemplo 3.
Marcelo Rebelo de Sousa com Cavaco Silva

Marcelo gosta de Cavaco? Não. E podia gostar? Podia. Cavaco gosta de Marcelo? Não. E podia gostar? Podia. Mas não seria a mesma coisa, na medida em que não só impossibilitaria este exercício retórico de pacotilha como também uma análise semiológica através da qual é possível decifrar o signo que subjaz a esta relação. Marcelo, ora diz bem, ora diz mal de Cavaco (no último caso, não o identifica) e cumprimenta-o. Cavaco só diz mal de Marcelo (nunca o identifica) e cumprimenta-o. A ausência de elogios de Cavaco é um sinal de não aceitação do presente, mas também de alguém que anseia por ser estimado. Já Marcelo, farto de ser estimado, quer partilhar o que tem em excesso. O resultado é perverso: cada vez há mais pessoas a gostarem do prazenteiro tio Marcelo e menos a gostarem do tirano pai Cavaco. Do qual se conclui que Cavaco faz parte da comissão de honra já formada (mas ainda secreta) de apoio à recandidatura presidencial de Marcelo. Qualquer outra explicação é demasiado simplista para poder ser verdadeira.

Esperando ter estado à altura dos desafios que a tua ciência coloca, despeço-me com estima e amizade,


Virgolino Faneca
 

Quem é Virgolino Faneca

Virgolino Faneca é filho de peixeiro (Faneca é alcunha e não apelido) e de uma mulher apaixonada pelos segredos da semiótica textual. Tem 48 anos e é licenciado em Filologia pela Universidade de Paris, pequena localidade no Texas, onde Wim Wenders filmou. É um "vasco pulidiano" assumido e baseia as suas análises no azedo sofisma: se é bom, não existe ou nunca deveria ter existido. Dele disse, embora sem o ler, Pacheco Pereira: "É dotado de um pensamento estruturante e uma só opinião sua vale mais do que a obra completa de Nuno Rogeiro". É presença constante nos "Prós e Contras" da RTP1. Fica na última fila para lhe ser mais fácil ir à rua fumar e meditar. Sobre o quê? Boa pergunta, a que nem o próprio sabe responder. Só sabe que os seus escritos vão mudar a política em Portugal. Provavelmente para o rés-do-chão esquerdo, onde vive a menina Clotilde, a sua grande paixão. O seu propósito é informar epistolarmente familiares, amigos, emigrantes, imigrantes, desconhecidos e extraterrestres, do que se passa em Portugal e no mundo. Coisa pouca, portanto.




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