III. Compadre Manuel
Virgolino Faneca é filho de peixeiro (Faneca é alcunha e não apelido) e de uma mulher apaixonada pelos segredos da semiótica textual. Tem 48 anos e é licenciado em Filologia pela Universidade de Paris, pequena localidade no Texas, onde Wim Wenders filmou. É um "vasco pulidiano" assumido e baseia as suas análises no azedo sofisma: se é bom, não existe ou nunca deveria ter existido. Dele disse, embora sem o ler, Pacheco Pereira: "É dotado de um pensamento estruturante e uma só opinião sua vale mais do que a obra completa de Nuno Rogeiro". É presença constante nos "Prós e Contras" da RTP1. Fica na última fila para lhe ser mais fácil ir à rua fumar e meditar. Sobre o quê? Boa pergunta, a que nem o próprio sabe responder. Só sabe que os seus escritos vão mudar a política em Portugal. Provavelmente para o rés-do-chão esquerdo, onde vive a menina Clotilde, a sua grande paixão. O seu propósito é informar epistolarmente familiares, amigos, emigrantes, imigrantes, desconhecidos e extraterrestres, do que se passa em Portugal e no mundo. Coisa pouca, portanto.
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Aqui vai a prometida carta que me pediste com novidades da nossa santa terra. Aí no Rio de Janeiro, agora que se aproxima o Verão, é que se deve estar bem. Por cá é só chover, o que contribui para a generalização do mau humor. Tu és sortudo. Chamas-te Manuel, usas bigode e tens uma padaria, fazendo o pleno do retrato robô que os brasileiros traçam dos portugueses. Calculo que tenhas ficado triste com a saída do Zeinal Bava da Oi. Afinal, ele comprava-te pão todos os dias e ainda fazia umas encomendas especiais, o que te devia alimentar o negócio. Mas pronto, a vida é o que é e o Zeinal regressa a casa de bolsos cheios e com a sensação de dever cumprido: ele e os accionistas da PT ofereceram aos brasileiros tudo o que a empresa tinha de bom. Eu estou convencido de que o fizeram de forma altruísta, para fortalecer as relações bilaterais, ao contrário do que insinuam as más-línguas, que os acusam de serem uns gananciosos e de terem enchido o bandulho à custa da empresa. E que agora se desculpam dizendo que a empresa se foi descapitalizando, mas que pelo caminho lhe foram chupando o capital sob a forma de dividendos.