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Maria do Carmo Fonseca: “Em princípio, seremos capazes de atrasar o envelhecimento”

Se é possível reverter o envelhecimento de uma célula, e se o nosso corpo é feito de células, então, em princípio, seremos capazes de atrasar o envelhecimento de um organismo, diz a cientista portuguesa, distinguida com o prémio Pessoa em 2010. Maria do Carmo Fonseca é uma das oradoras do ciclo de conferências “Who Wants to Live Forever?”, que começa a 20 de maio na Culturgest.

Lúcia Crespo lcrespo@negocios.pt 09 de Maio de 2020 às 15:00
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Como é que as tecnologias baseadas no conhecimento contribuem para a chamada "amortalidade" (viver mais anos sem envelhecer, revertendo as características das células velhas para torná-las mais jovens)? Esta é uma das questões de partida do ciclo de conferências da Culturgest. Oradora no primeiro painel – que terá como mote: "Longevidade: Precisão" –, a cientista Maria do Carmo Fonseca acredita que, nos próximos anos, vamos mesmo conseguir reverter o envelhecimento.

"Neste momento, os cientistas só conseguem fazer essa interferência ao nível das células, e não ao nível do organismo, mas já estão a ser feitas experiências em animais. Se é possível reverter o envelhecimento de uma célula, e se o nosso corpo é feito de células, então, em princípio, seremos capazes de atrasar o envelhecimento de um organismo. Estou muito crente de que isto vai ser possível dentro de alguns anos", salienta a investigadora em entrevista ao Negócios.

Maria do Carmo Fonseca é professora catedrática na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, onde lidera um laboratório de investigação na área da genética. Os genes têm sido objeto do seu estudo e por isso mesmo vai partilhar a sua experiência na conferência digital da Culturgest, na qual participam outros nomes, como Hedi Peterson, investigadora do projeto Genoma, e Ana Teresa Freitas, professora catedrática no Instituto Superior Técnico e cofundadora e CEO da HeartGenetics.

Prémio Pessoa em 2010, Maria do Carmo Fonseca é presidente Instituto de Medicina Molecular (IMM), instituição que, além de realizar testes de diagnóstico e serológicos, para avaliar a imunidade da população ao novo coronavírus, está a desenvolver o Biobanco Covid-19, estrutura que vai armazenar amostras biológicas com o novo vírus. Mas, mais do que a virologia, é mesmo o mundo dos genes que fascina a cientista.

"Não se pode generalizar o ‘check-up’ genético"

Os genes têm muita força, mas não têm toda a força. São muito plásticos e, com essa plasticidade, podem ser "moldados" para desafiar o destino, atuando na prevenção de algumas doenças oncológicas e cardíacas. "Durante muito tempo, achámos que aquilo que herdávamos dos nossos pais era mais ou menos um destino gravado nos genes. Não é bem assim, nós temos capacidade de atuar sobre eles. A informação de base não é necessariamente uma fatalidade", sublinha.

"Aliás, há alguns anos, quando foram clonados os primeiros animais, houve uma grande polémica, receando que fossem todos iguais. Hoje, o ‘drama’ dos clones quase desapareceu, porque um clone, no fundo, é como um filho: vai crescer, vai ter a sua própria vida e personalidade, e nunca será igual ao progenitor".

Se temos capacidade para atuar sobre o que está "escrito" nos genes, será aconselhável um "check-up" genético? "Não podemos generalizar. Esse ‘teste’ pode ser útil em situações pontuais e medicamente identificadas, para detetar algumas alterações, mas estamos a falar de menos de uma centena de alterações dentro no universo dos 20 mil genes que temos", salienta a cientista.

"Ou seja, o chamado ‘check-up’ genético pode ser útil, por exemplo, para identificar situações relacionadas com a predisposição hereditária ao cancro. Sabemos que alguns genes aumentam bastante a probabilidade de vir a ter cancro e, portanto, ter esse conhecimento precoce ajuda na sua prevenção. E o mesmo acontece com algumas doenças do foro cardiovascular. O conhecimento atempado permite prevenir algumas mortes súbitas ou enfartes do miocárdio em pessoas novas", sublinha Maria do Carmo Fonseca.

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