Weekend Virgolino Faneca e a estranheza do só eu sei porque estou em greve

Virgolino Faneca e a estranheza do só eu sei porque estou em greve

Na justiça deve prevalecer o segredo. Deve ser por isso que os oficiais de justiça, em greve decidiram cantar, usando uma melodia de apoio ao Sporting, o seguinte: "só eu sei porque estou em greve".
Virgolino Faneca e a estranheza do só eu sei porque estou em greve
Celso Filipe 16 de novembro de 2018 às 17:00

Caro Jesualdo

Aqui na Malásia, onde me encontro, a percepção da realidade nacional parece uma bola saltitona. Ou, então, trata-se apenas de um sugestionamento motivado pela fama merecida que a Malásia tem em matéria de borracha. É claro que o facto de estar a observar os acontecimentos através do filtro da RTP Internacional também não ajuda. Um tipo, tanto está a ver imagens do Bruno de Carvalho em tribunal como logo a seguir leva com a série "Sinais de Vida", na qual parte da narrativa tem que ver com a vida de médicos veterinários no Jardim Zoológico, e fica sem saber onde é efectivamente o circo, ou, em alternativa, a equacionar a possibilidade de os programadores da RTP Internacional serem muito bons na arte de enviar mensagens subliminares.

Depois, sem dar tempo para decantar a informação recebida, um tipo leva com o "Preço Certo", um concurso que se transformou num logro, na medida em que o Gordo deixou de ser tão Gordo assim e a menina Lenka já não mora ali, e no momento seguinte apanha com uma senhora deputada, Emília Cerqueira, a perorar sobre virgens ofendidas, fazendo menção das suas origens, o Alto Minho, para se desculpar pelo uso da expressão acima mencionada. Concluo que a senhora, além de praticar coisas inadvertidamente, é da opinião que quem se escandaliza com isso é uma virgem ofendida, i.e., uma mulher pudica que se escandaliza por tudo e por nada, circunstância que pode indispor os heterossexuais que opinaram sobre o tema, excepto o senhor deputado José Silvano, que é cumulativamente parte interessada da região do Alto Minho.

Felizmente existe na RTP Internacional o "Portugal em Directo", o qual funciona como um escovilhão capaz de remover o mal que existe em todas as regiões, Alto Minho incluído. Sendo um programa que "procura dar protagonismo aos valores positivos e às pessoas que trabalham e se distinguem para fazer um Portugal melhor", não há espaço para maledicência, dúvidas, suspeitas, interrogações e quejandos. Há reportagens sobre feiras de enchidos, certames de índole lúdico-cultural e toda uma panóplia de informação que mostra o pulsar das populações.

É sol de pouca dura, porque depois volta-se a Bruno de Carvalho e a um magnífico espectáculo de variedades, oferecido à porta do tribunal do Barreiro por um grupo de oficiais de justiça em greve, que aproveitam a melodia de um cântico de apoio ao Sporting para explicarem em coro as razões do seu protesto, substituindo o "só eu sei porque não fico em casa" pelo "só eu sei porque estou em greve". O que levanta um gravíssimo problema no plano comunicacional, na medida em que se só eles sabem porque estão em greve, os outros não podem apoiar as suas reivindicações na medida em que as desconhecem. Provavelmente, quem teve a brilhante ideia esqueceu-se deste paradoxo, o que é desculpável, porque as pessoas não se podem lembrar de tudo. Mas pronto, agora na ausência da Juve Leo, bem que o doutor Varandas os pode contratar para irem fazer as vezes da claque ao Alvalade XXI. 


Sei, Jesualdo, que ainda não revelei os motivos da minha estada na Malásia, e lamento mas não o vou fazer, pois estou numa missão secreta que tem que ver com o uso da borracha, o silicone, a Rita Pereira e o hábito dos malaios de só usarem colher e garfo à hora das refeições, dispensando a faca. No teu fértil raciocínio dedutivo, certamente encontrarás um nexo causa-efeito nestas premissas. Quando o conseguires, avisa ou então manda uma mensagem à Rita. Até lá, fico por aqui a entediar-me com a bola saltitona. Antes isso do que a "Praça da Alegria", programa de entretenimento que provoca em mim a estranha sensação de não querer voltar.


Um abraço deste que te estima,

Virgolino Faneca
 

 

Quem é Virgolino Faneca

Virgolino Faneca é filho de peixeiro (Faneca é alcunha e não apelido) e de uma mulher apaixonada pelos segredos da semiótica textual. Tem 48 anos e é licenciado em Filologia pela Universidade de Paris, pequena localidade no Texas, onde Wim Wenders filmou. É um "vasco pulidiano" assumido e baseia as suas análises no azedo sofisma: se é bom, não existe ou nunca deveria ter existido. Dele disse, embora sem o ler, Pacheco Pereira: "É dotado de um pensamento estruturante e uma só opinião sua vale mais do que a obra completa de Nuno Rogeiro". É presença constante nos "Prós e Contras" da RTP1. Fica na última fila para lhe ser mais fácil ir à rua fumar e meditar. Sobre o quê? Boa pergunta, a que nem o próprio sabe responder. Só sabe que os seus escritos vão mudar a política em Portugal. Provavelmente para o rés-do-chão esquerdo, onde vive a menina Clotilde, a sua grande paixão. O seu propósito é informar epistolarmente familiares, amigos, emigrantes, imigrantes, desconhecidos e extraterrestres, do que se passa em Portugal e no mundo. Coisa pouca, portanto.








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