O primado da culpa

Orhan Pamuk volta a Istambul para partilhar com os leitores as suas inquietações sobre a Turquia actual. Para isso socorre-se de uma história de um homem em busca do seu destino.
Jornal de Negócios
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Fernando Sobral 11 de agosto de 2018 às 17:00


Orhan Pamuk
A Mulher de Cabelo Ruivo
Editorial Presença, 246 páginas, 2018
A culpa é a base desta novela de Orhan Pamuk. E para a descrever socorre-se de histórias de pais e filhos. Percorremos por isso a vida de Cem Çelik, que trabalha nos arredores de Istambul, cidade sempre fulcral para o autor. Cem encontra no mestre Mahmut, o escavador de poços com que trabalha, o espaço deixado vago pelo pai desaparecido, um militante de extrema-esquerda que afinal não está na prisão mas sim com outra mulher. A sua relação torna-se forte. Cem acaba por ficar fascinado pelo épico iraniano "Shahnameh", em que um pai acaba por matar o filho. Isto depois de ter dormido com uma mulher de cabelo ruivo, por quem sente um fascínio quase doentio, e que acaba por enevoar o seu raciocínio, o que permite que ele não tenha cuidado no trabalho, levando a que mestre Mahmut tenha um acidente. Em pânico, Cem foge.
Acabamos por saltar anos para entrarmos na vida adulta de Cem, que só então tem consciência do que aconteceu a Mahmut e percebe quem era a misteriosa mulher de cabelo ruivo, uma actriz. Com detalhes muito bem construídos, como é típico de Pamuk, entramos num mundo feito de mistérios, obsessões e outros universos, onde a cidade turca de Istambul se destaca. Para além disso está sempre presente outra das obsessões do autor: o conflito dentro do mundo político turco (e também na alma turca), que tem que ver com os valores tradicionais e a modernização secular.
Pamuk fala-nos de tudo o que separa. Mas também de tudo o que une as pessoas e as sociedades. Talvez por isso Cem busque no mestre Mahmut o pai substituto que desapareceu de casa depois de ter sido levado pela polícia de segurança. Com Mahmut aprende como um pai tanto pode inspirar medo como afeição e como os segredos têm de ser guardados para garantir algum território íntimo muito próprio. O caso com a actriz tem que ver com o choque da realidade com o simbólico. O poço é um local de trabalho árduo, mas também de sonhos. Se Cem dorme com uma mulher que lhe diz que terá idade para ser sua mãe, quando regressa a Istambul descobre um novo amor, Ayse. Sobre ele, o pai que reencontra, diz-lhe que ela é parecida com a mãe de Cem. A sombra do passado está sempre presente.
No fundo, o livro acaba por ser uma parábola sobre os dias de hoje na Turquia, sobre as aspirações de parte da sociedade que acabam por levar à eleição de Erdogan. Cem acaba por dizer que parece que no seu país todos desejam um pai forte e decisivo que nos diga o que fazer (ou não). E isso leva a que constantemente todos necessitem de mostrar que não pecaram. Cem defronta-se com o seu passado quando lhe dizem: "Sim, o mestre Mahmut contou-me tudo. Deixou-o no fundo do poço porque é vaidoso e pensava que a sua vida valia mais do que isto. A sua escola, os seus sonhos da universidade e a sua vida eram mais importantes para si do que a existência daquele pobre homem." O passado regressa sempre como um espelho, num mundo em que cada um procura o seu destino.

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