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Agostinho Neto e a outra história de Angola

O historiador Carlos Pacheco dedicou vários anos a descodificar a vida política de Agostinho Neto. O resultado é um livro sólido e que acaba por garantir a polémica. Para ler e debater.

Fernando Sobral fsobral@negocios.pt 30 de Julho de 2016 às 12:30
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Carlos Pacheco, "Agostinho Neto" Vega, 2 volumes, 2016



Não é fácil falar de Agostinho Neto, o primeiro presidente da Angola independente, e símbolo da luta contra o colonialismo português. Tem os seus admiradores e os seus detractores, numa dualidade de opiniões que não tem permitido uma análise mais sensata das suas acções políticas ao longo dos anos. Foi isso que Carlos Pacheco, historiador angolano, procurou fazer num longo "perfil" daquele a quem chamam "ditador".

Os dois volumes agora editados, resultado de um longo trabalho de pesquisa e análise, são poderosos e confrontam-nos com o que foi mais visível na história do MPLA (e também de Angola, de forma mais geral) nas últimas décadas, antes e depois da independência. Não se procure aqui uma biografia mais ou menos balizada por obsessões ideológicas ou pessoais. Carlos Pacheco revolve a história e mostra-nos muitos dos seus momentos menos agradáveis. Aqueles que ninguém quer ver, mesmo sendo reais. Esta é a história da do MPLA "em carne viva". Nada nem ninguém é poupado. E por isso há quem se vá sentir incomodado com o que aqui é descrito.

Como escreve Carlos Pacheco, "A partir deste conjunto de coisas particulares acabadas de expor, creio ser seguro refazer o adulterado 'puzzle' que se tem do retrato político de Neto. O seu desportismo e intransigência diante dos grandes problemas acabaram por moldar a sangue e fogo o MPLA e avolumaram os conflitos e as fracturas internas com vários grupos a disputarem a supremacia do poder". Este, claro, é também um relato sobre o poder. De como se obtém e de como se mantém. A descrição da luta entre Agostinho Neto e Mário de Andrade (nome fundamental no quadro do nacionalismo angolano, e que Neto acusava de "intelectual"), serve de retrato àquilo que ao longo do tempo foi o afastamento de vozes discordantes que se sucederam ao longo dos anos.

Nas páginas, Carlos Pacheco também não poupa outros líderes como Holden Roberto, da FNLA ("discordar de Holden Roberto, ainda que no círculo do seu bando partidário, significava ser morto ou encerrado nas prisões de Ngungu, Makala, Ndozo e Mbinza"). Neto, pelo contrário, inspirava confiança em 1975: "o delírio e a apoteose da multidão que aguardava Neto no aeroporto de Luanda em Fevereiro de 1975, em 'super-batuque festivo', não aconteceu por acaso. A bem dizer, ele era mais do que um ícone histórico, personificava já uma lenda que chegava precedida de uma auréola colossal que logo ateou um clarão de esperança e alegria em muitos corações".

Pacheco não poupa Neto na forma como também geriu o Estado e a economia: "Aqui está a grande novidade histórica do novo sistema 'libertário' proclamado por Neto: a desestruturação de todos os sectores produtivos do país, o que levou a que se alargassem os caminhos da desigualdade, da pobreza e da criminalidade". Pacheco lembra a acção do poder de Neto contra tudo o que fossem livros ou papéis não vigiados, a destruição das bibliotecas. Relembra a perseguição a outro histórico do nacionalismo angolano, Viriato da Cruz.

Este livro choca. Porque não é fácil para quem tenha ideias muito focadas sobre Angola e sobre a sua história mais recente. É um livro que incita à reflexão e à contextualização histórica. E que também procura aclarar eventos que foram colocados numa redoma, como se fossem intocáveis.

Carlos Pacheco traz-nos aqui um longo estudo (que é uma reflexão sólida) sobre a história de Angola. Que merece ser lido e debatido.

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