Vinhos Um Legado que dá conversa

Um Legado que dá conversa

O vinho simbólico para a família fundadora da Sogrape chegou à 6ª colheita e não deixou as águas mansas. Uns acham que o tinto é perfeito e outros consideram que terá um perfil fora de moda. Ainda bem. Não há nada pior do que a pasmaceira.
Edgardo Pacheco 24 de março de 2018 às 13:00
Criado no Douro, o Legado 2013 está à venda por 250€ 

Das colheitas iniciadas em 2008, só participei em duas cerimónias de lançamento do Legado - o tinto simbólico para todas as gerações da família Guedes, fundadora da Sogrape.

Nos dois eventos fiquei com a sensação de que na embalagem do vinho faltava qualquer coisa. Até que, a 8 de Março - noite do lançamento do Legado 2013 -, ao trocar duas ou três frases rápidas com o "senhor Fernando Guedes" (que é como toda a gente trata carinhosamente o pai do actual administrador, que tem o mesmo nome), me apercebi daquilo que fazia falta: a biografia deste homem que recebeu do seu pai, Fernando van Zeller Guedes, uma empresa portuguesa e a transformou - com a visão dos filhos - num grupo internacional com operações em Espanha, Chile, Argentina e Nova Zelândia. Hoje, a dimensão da Sogrape fica bem em discursos sobre a internacionalização da economia portuguesa, mas o que eu gostaria mesmo era ler ou ouvir as pequenas e as grandes histórias, os sucessos e os insucessos, bem como as previsíveis peripécias que acompanharam a vida deste homem que, com 87 anos, nunca se esquece de meter humor no seu raciocínio.

É chato para um jornalista só poder conversar com o patriarca da família em eventos institucionais e ouvir-lhe belas histórias contadas à pressa, ocorridas há dezenas de anos, e depois ficar com a curiosidade aos saltos. Em verdade, uma biografia à moda inglesa e não em registo delico-doce como por cá se pratica seria serviço público prestado à história. Seria outro legado da família Guedes.

E a propósito da festa do 6.º Legado, a equipa da Sogrape esmerou-se nos detalhes simbólicos e revelou ousadia na criação da ementa do jantar. Se, por regra, as empresas levam os convidados a restaurantes estrelados, a Sogrape convida chefes com estrela Michelin para espaços históricos da empresa, sendo que, desta vez, Rui Paula foi confeccionar - e muito bem - à Adega de Cavernelho, em Vila Real, o primeiro centro de vinificação do grupo, e onde nasceu, em 1942, o Mateus Rosé. Ao que se diz, o conceito do vinho surgiu ao fundador Fernando van Zeller Guedes numa noite de insónia quando este andava por Trás-os-Montes a comprar uvas e a tentar dormir em pensões higienicamente duvidosas.

Ora, a ousadia deve-se ao facto de, para os dois pratos principais, terem sido apresentados vinhos estrangeiros na noite de celebração de um vinho português. Se para lagostim o confronto entre um Riesling alemão e outro da Nova Zelândia (da Sogrape) foi relativamente equilibrado, o combate entre o Legado 2013 e um Domaine Mongeard-Mugneret, Grands-Echézeaux Grand Cru, Côtes de Nuits 2014 é que foi um risco mal calculado. E por três razões. A primeira é que quando um crítico de vinhos ouve falar num Pinot Noir da Borgonha - e este não é um Pinot qualquer - esquece tudo o que está à volta. A segunda é que, como vem nos livros, a combinação entre Pinot Noir e um magret de pato (o prato do jantar) é praticamente imbatível. E, terceira e mais importante razão, o Echézeaux 2014 é um vinho que dá gozo de beber já, enquanto o Legado, com mais um ano de vida, precisa de tempo de garrafa para revelar a sua riqueza. E isto porque, a meu ver, o que temos agora são notas intensas de carvalho novo no nariz e na boca.

Vinco esta interpretação mas saliento que, entre os presentes no jantar, a doutrina dividiu-se, o que é saudável. Um grupo maior achou o Legado 2013 perfeito, outro menor, no qual me incluía, rodava o copo à procura de outros pergaminhos que, obviamente, o vinho tem - em particular a finura de boca impressionante -, mas sempre com o carvalho a impor-se, de tal forma que Luís Sottomayor, criador deste e de outros ícones da Sogrape, sentiu necessidade de abordar o assunto.

Como se sabe, a história das barricas dá pano para mangas, mas, se por um lado me parece que 24 meses de barrica nova é, hoje, excessivo e fora de tom (as notas balsâmicas e resinosas ficam sempre por cima da fruta), por outro, a minha memória não associa este perfil do Legado 2013 ao Legado 2011 e ao Legado 2012, onde havia maior complexidade de aromas e sabores, que eu gosto de associar ao "terroir" único e belo que é vinha velha da Quinta do Caêdo.

Não sei se o Legado 2013 seguiu os mesmos procedimentos técnicos das colheitas anteriores, assim como ainda não confirmei cientificamente se tenho ou não alergia galopante ao cheiro de aduelas novas, mas ficarei atento à passagem do tempo neste Legado 2013 (se a madeira der lugar a coisas mais complexas cá estarei para falar do assunto), assim como ficarei atento a novas colheitas de Legado, para voltar a rir com o senhor Fernando Guedes, porque, afinal de contas, é isso que interessa. Isso, vinhos icónicos e brindes feitos com coisas tipo Porto Ferreira Vintage 1960. Simplesmente soberbo.