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Em Espanha contágios por covid-19 caíram a pique com escolas abertas

Portugal e Espanha apanharam um grande susto com a terceira vaga, desencadeada logo após as festividades do Natal e Ano Novo. Em Portugal, a situação foi mais dramática e o Governo avançou com um confinamento geral que incluiu o encerramento das escolas. Espanha adotou medidas menos restritivas e deixou escolas abertas, mas ainda assim conseguiu uma grande redução do número de casos, em torno dos 68%.

Juan Martín /EPA
Manuel Esteves mesteves@negocios.pt 20 de Fevereiro de 2021 às 10:00
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Não é só em Portugal que o número de contágios por covid-19 está a cair a pique por estes dias. Também em Espanha houve uma redução acentuada dos novos casos depois do susto com a terceira vaga no início de janeiro. Mas há duas grandes diferenças: Espanha não atingiu os mesmos níveis estratosféricos de casos e mortes e embora tenha tomado medidas restritivas contundentes, não avançou com um confinamento geral e deixou as escolas abertas.

A discussão em Espanha neste momento é mais como e quando desconfinar. Várias regiões estão já a levantar medidas de forma gradual, enquanto outras marcaram datas para o fazer ao longo deste mês e do próximo.

Mas voltemos um pouco atrás. Os dois países ibéricos têm andado a par e par na evolução da pandemia desde o início de outubro. Embora Espanha estivesse então num planalto mais elevado do que o português, foi a partir dessa altura que os casos começaram a escalar naquela que ficou conhecida como a segunda vaga. O pico foi atingido em novembro, 15 dias antes em Espanha, e a tendência de descida desencadeada por algumas restrições manteve-se até dezembro.

A terceira vaga começou a desenhar-se nos dois países no início de janeiro, na sequência das festividade de Natal e Ano Novo, e foi encorpando sucessivamente. Os números da Johns Hopkins University, coligidos e divulgados pelo site Our World In Data, mostram que os dois países atingiram o pico quase em simultâneo – Espanha a 26 de janeiro e Portugal a 28 – mas a dimensão foi muito diferente: enquanto Espanha não foi além de uma média (de sete dias) de 792 casos por cada milhão de habitantes, Portugal chegou aos 1.264 casos – mais 60%.

Casos caíram 82% em Portugal e 68% em Espanha

A coincidência da data em que a descida se inicia não é um acaso e reflete as medidas tomadas. Tal como em Portugal, que a 15 de janeiro avançou com o confinamento geral (ainda sem encerrar escolas), também as comunidades autónomas espanholas decretaram medidas restritivas por esta altura. As decisões variam consoante os governos regionais e a situação concreta da pandemia nessas regiões: de acordo com levantamentos feitos pelos jornais El Pais e El Mundo, as medidas mais comuns passaram pelo recolher obrigatório a partir das 20h ou das 22h, do encerramento de restaurantes e bares ou de limitações à sua lotação e horários e proibição de ajuntamentos superiores a quatro ou seis pessoas.



E embora a maioria das comunidades não tenha decretado um encerramento geral, o certo é que os casos caíram acentuadamente. Basta olhar para o primeiro gráfico. Entre o pico registado a 26 de janeiro e 17 de fevereiro, a média de novos casos caiu 68%. Em Portugal, a queda foi maior, de 82%, refletindo a maior dureza das medidas restritivas.

Quanto ao número de mortes, a redução é muito mais relevante em Portugal, como se vê no segundo gráfico. Do máximo de 28,5 novas mortes (média de sete dias) por milhão de habitantes, a 1 de fevereiro, Portugal passou para 10,4, a 17 de fevereiro (-64%). Em Espanha, ao contrário do que seria de esperar tendo em conta que os novos casos começaram a baixar antes, o pico de mortes ocorreu bastante mais tarde, a 11 de fevereiro, com 13 novas mortes por milhão de habitante, que passaram agora para oito (-39%).



No entanto, o comportamento tão diferenciado das mortes poderá estar relacionado com o frio. Segundo o Instituto Ricardo Jorge, 25% do excesso de mortes verificado em janeiro resultou da invulgar vaga de frio de janeiro e isso é coerente com a descida rápida e inesperada das mortes, quase em simultâneo com o número de casos, algo que não é habitual. Em Espanha também houve uma enorme vaga de frio, mas o Negócios desconhece os efeitos que teve na mortalidade. Certo é que, segundo os dados da Johns Hopkins University, divulgados pela OWID, esta não desceu com a rapidez verificada em Portugal.

E os internados nos hospitais? Bom, aí os dados são surpreendentes. A avaliar pelos números citados pela RTVE, em proporção dos habitantes, há mais internados nos cuidados intensivos em Espanha do que em Portugal. Segundo a televisão pública espanhola, há 3.822 doentes graves no território espanhol, o que corresponde a cerca de 81 por milhão de habitantes. Em Portugal, havia 688 reportados nesta quinta-feira, o que corresponde sensivelmente a 69 por milhão de habitante. Já se incluirmos os doentes em enfermaria, Portugal apresenta um número ligeiramente superior, em proporção dos seus habitantes: 382 contra 367 no país vizinho. No entanto, recomenda-se alguma cautela na comparação deste tipo de dados porque os países podem usar critérios clínicos diferentes para as decisões de internamento.



O que se pode concluir?

Resumindo, na sequência das festividades de Natal e Ano Novo, ambos os países viram crescer uma terceira vaga da pandemia no início do ano, que atingiu em Portugal uma dimensão muito superior à de Espanha, tanto em número de casos como de mortes. Os dois países reagiram em meados de janeiro, mas Portugal foi mais longe e decidiu decretar um confinamento geral, que acabou por incluir as escolas, enquanto Espanha não foi tão longe. Em termos de resultados, ambos os países parecem ter sido bastante bem sucedidos na redução dos novos casos. Portugal conseguiu uma redução mais acentuada e agora tem, em proporção da sua população, ligeiramente menos casos do que em Espanha.

Será que Portugal, na situação em que estava, poderia ter evitado o fecho das escolas, a que António Costa tanto resistiu pelo comprovado impacto social que tem? Essa é uma pergunta que fica, pelo menos para já, sem resposta. A única coisa que se pode concluir é que foi possível a Espanha anular a terceira vaga sem que tivesse recorrido a um confinamento total e mantendo em funcionamento as escolas para todos as idades.

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