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"Brasil precisa de uma reforma tributária e do mercado de trabalho"

Economista-chefe do BESI Brasil explica quais os principais desafios para o próximo presidente brasileiro e qual a perspectiva para a economia do país.

André Cabrita-Mendes andremendes@negocios.pt 27 de Outubro de 2014 às 00:41
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Jankiel Santos é economista-chefe do BESI Brasil desde 2008, depois de ter passado pelo ABN Amro e pelo Citibank. Na sua formação académica conta com um MBA em Finanças pelo IBMEC-São Paulo e um mestrado em Economia e Finanças pela Fundação Getúlio Vargas. Um observador privilegiado da economia brasileira, Jankiel Santos explicou ao Negócios quais os principais desafios do próximo presidente brasileiro e quais as perspectivas para a economia brasileira.

 

Quais os principais desafios do próximo presidente brasileiro? 

O que eu acho mais tranquilo de ser implementado é a noção de uma agenda de reformas que sinalize ao mercado o retorno a práticas mais eficientes de alocação de recursos. Ou seja, o Estado vai concentrar-se de novo em fazer aquilo que ele tem de fazer: fornecer infra-estrutura e, na impossibilidade de fazer essa infra-estrutura, atrair o investidor privado para poder ter lucratividade garantida nessa história. Acho que essa é uma medida que pode ser facilmente implementada sem muito debate, sem muita necessidade de conversa. Para ficar patente que há a necessidade de uma política mais amiga do sector privado, é algo que deveria ser retomado.

 

Do ponto de vista de reformas, também acho que tem que voltar com uma agenda de reformas estruturantes no país, como a reforma do mercado de trabalho, reforma tributária, reforma do ponto de vista previdenciário. Para poder de facto criar condições para que a economia brasileira gere poupança para poder aumentar o grau de investimento.

 

Essa é a grande dúvida quanto ao potencial do mercado de consumo brasileiro, o que falta é a capacidade de estimular o potencial de investimento do brasileiro. Já temos potencial para consumir. Investir é que é mais complicado. É preciso criar condições para que isso possa acontecer, para que haja mais poupança, para que o brasileiro possa poupar. Passar por um processo de reformas nesse sentido, de facilitar a questão de investimento.

 

Também é preciso travar um combate extremamente rigoroso na questão da inflação. Os custos acabam por afectar não só os mais pobres, que são os mais afectados, mas também os empresários, que vão ter mais indefinição para tratar dos seus problemas de investimento. É de facto preciso um combate mais árduo nesta questão.

 

Na campanha os rivais de Dilma falaram na necessidade de reduzir os apoios dos bancos públicos à economia. É essencial haver esta redução?

Sim. Tem sido excessiva a utilização dos bancos públicos – BNDES, Nossa Caixa, Banco do Brasil – para concessão de crédito, principalmente voltados ao consumo, e isso não tem gerado um maior crescimento.

 

Não é que seja contra a utilização de crédito público para o estímulo à economia. Mas o Governo tem tido uma postura muito mais de escolha – de sectores específicos para serem os vencedores – os campeões nacionais. Não pode. É muito melhor que se faça uma política horizontal de incentivos do que uma política centralizada.

 

Recessão técnica e revisão de crescimento em baixa. Estes indicadores económicos são passageiros ou podem ser um prenúncio para os próximos quatro anos? 

Para os próximos quatro anos é difícil de prever. Mas para o próximo ano eu não tenho muita dúvida em dizer que será outro ano de crescimento baixo. Porque todos os ajustes necessários, serão ajustes dolorosos.

 

Seja pela questão da descompressão dos preços administrados, que vai significar menos renda disponível para o consumidor, seja com um possível aumento de taxas de juro para combater os efeitos secundários de descompressão.

 

Penso que o primeiro ano vai ser difícil, mas os outros três anos do novo mandato presidencial podem vir a ser melhores. Se continuarmos assim podemos entrar em 2016 numa trajectória mais forte.

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