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Carlos Costa insinua que Trump não entende metas e independência do BCE

O governador do Banco de Portugal admitiu que alguns dos comentários à política monetária seguida pelo Banco Central Europeu (BCE) decorressem da ignorância em relação às motivações e modus operandi da instituição, um dia depois de Trump ter tecido duras críticas às intenções manifestadas pelo BCE.

André Kosters/Lusa
Negócios jng@negocios.pt 19 de Junho de 2019 às 17:56
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No rescaldo das críticas de Donald Trump às pistas deixadas pelo Banco Central Europeu (BCE) acerca da futura política monetária da Zona Euro, o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, que como tal é também parte do conselho de governadores do BCE, encara como "normal" a existência de comentários sobre os planos da instituição, sobretudo da parte de quem não está inteirado sobre os objetivos e valores de independência da mesma.

"É normal que existam comentários, nomeadamente daqueles que não entendem a independência e objetivos do BCE", disse Carlos Costa, em entrevista à televisão da Bloomberg no último dia do Forum do BCE em Sintra, Portugal.

As críticas de Trump incidiram sobre a desvalorização da moeda única europeia, a qual se verificou na sequência do discurso do presidente do BCE, Mario Draghi, também em Sintra, que admitiu mais medidas de estímulos económicos e abriu a porta à descida de juroa na região.

No Twitter, Donald Trump reagiu rapidamente, comparando indiretamente a Zona Euro à China na manipulação da moeda: "Mario Draghi acaba de anunciar mais estímulos, o que imediatamente desvalorizou o euro em relação ao dólar, tornando injustamente mais fácil para eles concorrerem contra os EUA. Fazem-no de forma impune há anos, juntamente com a China e outros".

"Tal como foi dito por Mario Draghi, o nosso objetivo não é a taxa cambial, mas sim a inflação", explicou Costa na mesma entrevista. Para além de Costa e Draghi, já o ex-economista-chefe do BCE, Peter Praet, que abandonou o cargo há dois meses, respondeu a partir de Sintra: "O BCE não pode ser culpado pela incerteza desencadeada pelo comércio", disse, apontando o dedo ao conflito comercial entre os Estados Unidos e a China, o qual tem ditado o abrandamento das economias a nível mundial.  

Ao mesmo tempo que critica Draghi por um possível corte dos juros, Trump tem exigido à Fed, a instituição homóloga nos Estados Unidos, uma descida dos juros para dar gás à economia nos EUA.

"Há espaço para comprar mais dívida portuguesa"

 

Na mesma entrevista à Bloomberg, o Governador do Banco de Portugal disse que o Banco Central Europeu vai utilizar as ferramentas que tem à disposição para garantir a estabilidade dos preços na Zona Euro.

 

"O que espero é que se for necessário, e o ritmo de ajustamento da inflação não seja o que desejamos, possamos usar as ferramentas com a flexibilidade que é permitida" pelo tratado europeu, disse Carlos Costa.

 

Uma das possibilidades passa pelo reforço da compra de obrigações soberanas e nesse contexto há margem de manobra para comprar mais títulos portugueses. "No que diz respeito a Portugal, há espaço para comprar [mais títulos de dívida], uma vez que ainda estamos abaixo" da chave de capital, acrescentou o Governador.

 

As compras líquidas acumuladas pelo banco central português no âmbito do programa de compra de ativos estavam em maio em 1,9% do total, quando o limite (chave de capital) está em 2,5%.

 

Carlos Costa acrescentou na mesma entrevista que a economia portuguesa necessita de aumentar o seu crescimento potencial e reforçar na área dos bens transacionáveis. E estimou que a banca portuguesa vai continuar a reduzir a carteira de malparado.

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