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Pressões inflacionistas começam a aliviar, dizem analistas

Analistas acreditam que a inflação já terá atingido o seu pico neste último trimestre de 2022, mas avisam para o momento de incerteza, designadamente devido à guerra na Ucrânia.

Vasco Neves
Lusa 31 de Dezembro de 2022 às 10:36
O pico da inflação já deverá ter sido atingido, havendo sinais de que em 2023 haverá um alívio das pressões inflacionistas, acentuado por uma desaceleração do crescimento da economia, segundo os economistas consultados pela Lusa.

O risco de uma subida da inflação acima do esperado não desapareceu, até porque primeiro a pandemia e depois a guerra deixaram a lição de que a incerteza é uma certeza nas previsões macroeconómicas, mas os dados disponíveis até à data levam os economistas a acreditar que a taxa de inflação em Portugal irá entrar numa trajetória de redução, tal como na zona euro e nos Estados Unidos.

Filipe Garcia, presidente da IMF -Informação de Mercados Financeiros, acredita que "a inflação como grande movimento terá atingido o seu topo no início de outono" e mostra-se "confiante" de que a taxa irá diminuir em 2023 em Portugal e na zona euro e "tenderá a caminhar para uma certa normalidade".

Ainda que admita que o "ritmo da descida é que provavelmente será mais lento do que todos gostávamos que fosse", para o economista, a evolução da inflação vai depender muito da desaceleração económica que acontecer em 2023, reduzindo-se mais se uma eventual recessão na zona euro for maior.

Uma opinião partilhada por Paulo Rosa, economista do Banco Carregosa, que considera que "a inflação em termos homólogos terá atingido o seu valor mais elevado muito provavelmente neste trimestre, estando ainda a ser penalizada pelos efeitos base".

"À medida que a economia desacelera é previsível que a inflação abrande em 2023. A não ser que a guerra na Ucrânia se agrave significativamente, escalando para além das fronteiras do país invadido, ou haja um acontecimento imprevisível no próximo ano similar a um cisne negro", justifica.

A sustentar a convicção de que 2023 poderá trazer o início de uma tendência sustentada de diminuição da inflação estão dados como os divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), na sexta-feira.

Se é certo que em 2021, nomeadamente com o pós-pandemia e as dificuldades nas cadeias globais de abastecimento, se começou a assistir a uma subida da inflação, também é certo que 2022 foi o ano da escalada desta taxa, que fez soar alarmes e obrigou os bancos centrais e os governos nacionais a agir.

A estimativa rápida do INE aponta para uma taxa de variação média do Índice de Preços no Consumidor (IPC) de 7,8% em 2022 (dados provisórios), a mais alta em três décadas, quando atingiu 9,56% em 1992.

Ainda assim, o INE indica que a taxa de inflação homóloga voltou a descer em dezembro pelo segundo mês consecutivo para 9,6% este mês, depois da ligeira redução em novembro para 9,9%, numa evolução muito influenciada pelos bens energéticos e pelo efeito base.

"Isto aconteceu em certa medida com uma diminuição de preços dos combustíveis, que em Portugal têm uma influência bastante relevante", sublinha Filipe Garcia.

Uma tendência de queda que Paulo Rosa realça que se tem sentido em vários países da União Europeia: "A pressão de custos tem diminuído principalmente devido à queda dos preços da energia, bem como à redução da pressão na cadeia de suprimentos. O preço do petróleo já está abaixo dos níveis do início da guerra na Ucrânia", explica.

A este cenário associa-se a evolução nos Estados Unidos, país que também tem assistido a uma desaceleração da taxa de inflação, o que Miguel Faria e Castro, economista da Federal Reserve Bank of St. Louis, recorda que também afeta a Europa, através da inflação importada.

"Os últimos números [nos Estados Unidos] são promissores. Uma das razões pelas quais penso que será o fim da inflação é que estamos a ver uma desaceleração muito rápida no setor imobiliário norte-americano. Os preços não estão a crescer tanto e o volume de vendas de casos nos EUA tem diminuído", assinala.

O Governo português, que prevê uma taxa do índice harmonizado de preços no consumidor (IHPC) de 4% em 2023, continua cauteloso, com o ministro das Finanças, Fernando Medina, a afirmar na sexta-feira que os dados ainda não permitem dizer que o pico já foi atingido e já se está num "processo de regressão", mas "são sinais encorajadores".

No entanto, a estimativa das Finanças é encarada pelos economistas como plausível: "Não me surpreenderia que pudéssemos fechar ano que vem com uma inflação no final de ano na casa de 3,5% ou 4% e uma inflação média de 5,5% ou 6%. Ou seja, ainda alta, mas em desaceleração", aponta Filipe Garcia.

As projeções mais baixas para a inflação portuguesa em 2023 mostram que esta não está tão enraizada e generalizada como na Europa, porque não estava também tão dependente do gás natural russo como por exemplo a Alemanha ou a Itália, acrescenta Paulo Rosa, para defender que "qualquer melhoria da inflação na União Europeia e um abrandamento dos preços das 'commodities' conduziria a inflação portuguesa no final de 2023 para valores abaixo dos 4%".

O economista recorda que "parte dos produtos importados por Portugal da Europa, sobretudo combustíveis fósseis, metais industriais e produtos agrícolas, têm origem fora Europa e são cotados a maior parte das vezes em dólares, tendo acelerado o avanço da inflação europeia nos primeiros noves meses".

"Desde o início de outubro, a valorização do euro face ao dólar à volta de 12% tem contribuído para uma desaceleração da inflação importada", assinala.

Se, porventura, em 2023 a inflação se fixasse acima do esperado, Paulo Rosa avisa que iria diminuir "ainda mais o rendimento disponível das famílias, contribuindo para uma desaceleração ainda mais acentuada do crescimento económico português em 2023 e aumentando a probabilidade de recessão".

O Banco de Portugal e a Comissão Europeia preveem que, em 2023, o IHPC caia para 5,8%, enquanto a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) estima 6,6% e o Conselho das Finanças Públicas (CFP) e o Fundo Monetários Internacional apontam para 5,1% e 4,7%, respetivamente.
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